Álvaro de Novais, o “caixa-de-fósforos”

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Álvaro de Novais foi um poeta desconhecido para a maioria ou para a quase totalidade desta geração.

Não sendo o único, torna-se difícil tecer considerações sobre uma personalidade desta dimensão que está na galeria dos maiores poetas que tanto amaram Angola.

O "caixa de fósforos", como era conhecido no seu círculo de amigos, esse era o seu pseudónimo, faleceu em 1980. Detentor de uma humildade constrangedora, teve, nos últimos anos da sua vida, momentos muito difíceis, mantendo sempre a dignidade, a honestidade, o valor humano, o carinho e a solidariedade para com os amigos.

Declamava os seus poemas de memória, em tertúlias de amigos e companheiros de boémia. Os poucos conhecidos, e que apareceram publicados, devem-se à iniciativa de amigos que os redigiram ou gravaram, nunca os escreveu. Está sepultado em Luanda, cidade que muito amou e foi palco da sua vida.

Dor

Na meu corpo não dói
na meu bolso está cheio
êuê! Tanto dinheiro!
Viver é bom
pudera
carcura lá:
na meu casa tem tudo
comida vinho
cate passa chuva que traz fresco.
Aí na meu porta passa gente
que vai que vem volta que fica
cumprimenta
me diz:
eh, senhor você és rei!
Mas parece que farta
farta mesmo
rir na meu boca
cantar na meu coração.
Porquê?
É mundo que me ralha e diz:
dinheiro, capataz da fome

Álvaro de Novais

Álvarito, desculpa

na partida do caixa-de-fósforos

Se os anjos vão
para o céu
aqui o
foste

Álvarito, desculpa
tu não
coubeste
nunca

na caixa-de-fósforos
que tinhas
pra
gastar

David Mestre


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