Aos artistas que a morte beijou em 2016

Envie este artigo por email

Sempre foi missão e privilégio de artista dizer não à morte.

Aos artistas que a morte beijou em 2016
Papa Wemba Fotografia: Arquivo

Por cá, de rajada, com Eleutério Sanches e Carlos Pimentel, vimo-nos obrigados a aceitar, a não conseguir refilar contra o facto, a não dizer não. Como somos impotentes! Sim, bastante. Mas antes, já a morte nos tinha dado outro beijo, quando poisou entre nós e, ao soltar voo, não teve o descuidado de se esquecer de levar Moisés Kafala. Como queríamos que ela se esquecesse! Que passasse por ele desavinda e histérica com tanto que os vivos já sofrem, que, aliás, de observar tantas formas de morte criadas na terra, ganhasse uma certa fobia de estar entre nós. E ainda entre nós, africanos, o ano que abre herda o vazio de estarmos sem Papa Wemba, o nosso irmão congolês que já se podia dar ao luxo de assumir a categoria de soba no grande jango dos artistas africanos, pela discografia abrangente, sucesso e respeito internacional; tudo acumulado devido à sua reconhecida genica e génio artístico.
Para lá das nossas terras, as tão grandes América e Europa dos nossos dias também choraram, ao saber que o corpo de um grande artista de língua inglesa e nome singular da música mundial do século XX, Leonard Cohen, não resistiu à morte. O mesmo aconteceu a Prince, Maurice White, David Bowie, Dario Fo, George Michael (autor de Careless Whisper, tema que é música de fundo de um dos programas de rádio mais queridos da nossa Luanda), à Sharon Jones, e outros artistas não mencionados aqui.
Irónica como é a vida, fechara também os olhos aquele que tanto nos desafiou a abrir a mente: Umberto Eco, ele que, em “A Definição da Arte”, peremptoriamente propusera: “Conteúdo da obra é a própria pessoa do criador que, ao mesmo tempo, se faz forma, pois constitui o organismo como estilo (reencontrável em cada leitura interpretante), modo como uma pessoa se forma na obra e, ao mesmo tempo, modo no qual e pelo qual a obra consiste. De tal maneira que o próprio assunto de uma obra mais não é do que um dos elementos no qual a pessoa se exprimiu tornando-se forma”. Esta definição de Eco sustenta a ideia de que os artistas, de fruição e elevação intemporal, não morrem. Jamais morrem. Vertem-se no que fazem e pela forma como o fazem. Assim, podemos dizer apenas, a referimos, é claro, à matéria transportadora: a carne, a tábua, o ferro ou seja lá qual artefacto usado para constituírem o seu espectro, que fugiram, escapuliram, bazaram, desvaneceram, deteriorou, saparam, saíram simplesmente da vida. Mas não: não morreram. Sempre foi missão e privilégio de artista dizer não à morte.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos