De regresso a casa

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O bairrinho continuava pobre mas mudara bastante. As ruas de areia batida contrastavam com o luxo dos carros que ali estacionavam. "Luxo na miséria", criticavam os mais velhos, amargos, desapontados

Os velhos de hoje, crianças de outrora, não reconheciam mais as suas ruas, as suas casas de pinturas pálidas, esbatidas pelo Sol.Os seus filhos haviam deixado o bairro para morar em casas mais confortáveis na periferia da capital, se fossem casais jovens no início da vida, nas vivendas mais caras da capital, se ocupassem cargos de responsabilidade.

Mesmo assim, muitos moradores do bairro lá iam amiúde visitar mães, avós, familiares e amigos o que explicava a presença dos carros luxuosos à porta das casinhas humildes. Às vezes, havia mais carros do que ruas, o que irritava os habitantes do bairrinho pobre por não poderem circular livremente nem descansar, sobretudo ao fim de semana.

Altos sons saíam das aparelhagens potentes e ruidosas dos carros estacionados, das portas escancaradas ou dos quintais vizinhos. Era o mesmo ritual, martírio para os mais velhos, todos os fins-de semana!

A professora no exílio no estrangeiro continuava a visitar o seu bairrinho e a sua família. Reencontrou amigos de infância cujos filhos haviam regressado à terra após terem seguido formações no estrangeiro, com bolsas de estudo pagas pela Nação ou estudos custeados, com sacrifício, pelos pais.

Os trabalhadores manuais talentosos e sérios haviam praticamente desaparecido. Era um bico de obra encontrar serralheiro, eletricista, soldador, canalizador, pintor, carpinteiro, marceneiro. Em contrapartida, jovens sem ocupação calcorreavam as ruas de manha à noite apregoando produtos dos mais úteis aos mais fúteis.

Parecia até que o bairrinho se tornara numa grande mercearia onde a maioria dos seus habitantes, os mais necessitados nomeadamente, revendia o que não produzia nem nunca consumia.

O trabalho perdera o valor, pois só altos postos com mordomias interessavam às novas gerações, mais ambiciosas e arrivistas que as precedentes. O esforço que o país consentira para formar as elites no exterior não produzira os frutos esperados já que este se via obrigado a recorrer à cooperação estrangeira para as tarefas de reconstrução que se impunham.

A negligência na formação profissional que caracterizava o ensino de outrora deixara sequelas profundas. Embora houvesse iniciativas e experiências pedagógicas isoladas dignas de relevo, era todo o sistema de educação e ensino que teria de ser repensado para reconciliar os filhos da terra com o saber e a aprendizagem. Uma escola sustentável, que garanta uma formação em todos os ramos, para a vida e pela vida, respeite as vivências e aspirações dos cidadãos, é, no entanto, possível se houver vontade de desmistificar a educação e o ensino.

Urge transmitir simples e concretamente o que as pessoas precisam de conhecer para viverem melhor, integradas no meio que as rodeia, abertas para o mundo e inseridas num contexto cada vez mais global. As novas tecnologias, utilizadas com inteligência e sem medos, desempenham um papel fundamental nessa nova educação, que se quer mais consciente e participativa.

Vivemos num único e mesmo Planeta. Os seres que o habitam partilham as mesmas aspirações nas diferentes etapas do seu desenvolvimento e alimentam quase sempre os mesmos sonhos: viver em paz, com dignidade, numa utilização racional e comedida dos recursos naturais postos à sua disposição; velar pela conservação do meio ambiente para que este continue a acolher as gerações futuras que também a ele têm direito.

Paris, 06 de Janeiro de 2012

"O homem que não tira o palito da boca"

Sai em 2013 na Feira do Livro de Havana

O livro de contos "O homem que não tira o palito da boca", do escritor João Melo, será traduzido para o espanhol e apresentado em Fevereiro de 2013 na Feira do Livro de Havana. Esse é o quinto livro de ficção do autor, que começou por publicar poesia. O mesmo já foi publicado em Angola, pela editora Nzila, e em Portugal, pela Editorial Caminho, ambas do Grupo Leya.

Entretanto, o conto "O celular", incluído no terceiro livro de contos de João Melo ­ "The serial killer e outros contos risíveis ou talvez não" -, foi traduzido para francês, com o título "Le portable", e publicado na edição de Setembro deste ano da revista literária The Black Herald, publicada em Paris. A tradução esteve a cargo de Cécile Lombard.

O mesmo conto foi traduzido para inglês por Luísa Alvim, com o título "The cellphone", e deverá ser publicado no número de Março de 2013 da revista literária editada pelo Center of Portuguese Studies and Culture, da Universidade de Massachusetts Dartmouth, nos Estados Unidos.

João Melo escreve desde os 15 anos de idade, mas apenas começou a publicar aos 31 anos. É poeta, contista, cronista e ensaísta, tendo lançado até agora 13 livros de poesia, cinco de contos e um de ensaios. Em 2009, venceu o Grande Prémio de Cultura e Artes, na categoria de literatura.

Habitualmente publicado em Angola e Portugal, tem livros lançados igualmente no Brasil e Itália. Além disso, tem contos traduzidos para inglês, francês, árabe, mandarim e alemão.

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