Estórias do Lubango: Homens de barro

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Hoje ouvi uma estória, sobre um homem do tempo em que os homens, os pais, os avós, os tios, e os irmãos eram feitos de outro material.

Estórias do Lubango Homens de barro
Estórias do Lubango

Um barro sólido, constante, duro quanto se queria, sem adornos e sem detalhes brilhantes. Muitas são as referências em que nos homens e mulheres viemos e somos como barro. Temos que cozer até estarmos prontos para, então, vasos sermos. Nesse tempo, os homens eram vasos inquebráveis por fora, não tinham rachaduras que se conseguissem ver e enchiam-se por dentro sem pressa. Não se contentavam em encher-se de qualquer conteúdo; nem se deleitavam com o vazio, nem invejavam a abundância, e nunca mas nunca se deixavam encher à custa da perda de outros.
Ao contrário desse tempo, os homens de hoje tornam-se vasos sem terem o tempo suficiente de cozedura. Tornam-se quebradicos, fracos e frágeis antes do tempo. Sem particularidades distintas. Não se lembram que um vaso pode transportar o mais precioso dos conteúdos. E são seguidores da crença de que o mais importante com que se pode encher um vaso é com ouro e diamantes. Não se fazem homens com as letras definidas.
Estes homens do antigamente tinham uma só opinião, fosse em que situação fosse. Não se deixavam inebriar pelo brilho excessivo.
Eram. Com todas as letras. E sabiam onde começavam e onde acabavam os seus contornos de vaso. Não eram dóceis demais, nem ternos demais, nem tolerantes demais. Eram mais duros, mais severos, mais fortes, mais seguros e incontornáveis. Feitos de certezas, teimosias, e de machismo sem vergonha. O mais importante que levavam dentro de si não eram posses, títulos, viagens, nem mesmo o conhecimento. Era o saber. Ser.
Essa estória levou uma pequena lágrima ao meu coração, o que me acontece com regularidade mas esta lágrima foi de saudade. Saudade de um tempo em que não vivi, mas levo-o em mim pelos homens que existiram e deixaram história. Embora não o tivesse conhecido suficientemente bem, este homem era um desses homens que faz história e nos deixa sem nos sabermos mais seguros do chão que pisamos e mais esperançosos do que está por vir. Chorei inconsolavelemente quando vi passar o seu cortejo fúnebre. Não só pela perda de um grande homem, não só pela dor daqueles que sei que levavam o coração sangrento nas mãos, mas também pela impotência e fragilidade de que somos feitos e lembrados desta maneira.
Era um dia em que se queria silêncio e paz. Em que a vida podia ter esquecido as horas por um bocado, os táxis e carros podiam não ter gritado tanto a sua pressa, os telemóveis deixado de perguntar o banal, as pessoas conduzido um trajecto solene. E a lua podia-se ter deixado anoitecer por dias, para termos tempo de, naquele silêncio obrigatório da noite, podermos chorar sorrateiros e abraçar quem sofria a perda, sem pressa. Mas não. A vida nasceu a gritar e a girar violentamente no seu próprio eixo. E o homem que tanto fez, calou.
Era uma homem com o coracão na algibeira e, nos últimos anos de sua vida, a sua algibeira tinha-se tornado pequena para tamanho coração. Dava a quem lhe estendesse a mão, sem querer averiguar a veracidade da necessidade apresentada. Muitos foram o que estenderem a mão sem muito esforço. Mas o homem, depois de uma vida vivida, já não se interessava por questões irrelevantes. Sentia a felicidade de ver os que tinha criado com os princípios assentes ainda que adaptados a uma realidade nova. Princípios, valores que conquistou durante uma vida e agora testemunhava-os nos seus. Era um compromisso cumprido. Por isso, o que lhe restava dava a quem fizesse falta. Tinha conseguido a tarefa difícil de transportar dentro do seu vaso o mais importante líquido. Água. O desafio não era encher-se dela até à borda, nem tão pouco desfazer-se dela e permanecer leve sem se prender a nada. O desafio era levar a quantidade certa de água para os seus e protegê-la do odor imundo do mundo, da poluição da sociedade à nossa volta, da ambição de juntar à água algo que fermentasse e a tornasse em álcool embriagante. Tinha levado uma vida preenchida de dificuldades, mas ainda assim a sua água era incolor, inodora, límpida e pura.
Um dia, há muitos anos, quando os telefones serviam para o que era crucial e não para relatar o trivial que acabara de acontecer há 5 minutos, esse homem telefonou à sua Linda e jovem mulher que cuidava da sua primera filha ainda com poucos meses de vida. Ele servia no exército na altura, e qualquer telefonema era sempre motivo para que, tanto de um lado como do outro, o coração saltasse uma batida, até se ter certezas. Pois, nesse dia, o homem pediu à mulher que acendesse uma vela do tamanho da sua pequena filha e a fosse deixar na capela da cidade. Sem perguntas, a mulher, aliavada pelo motivo do telefonema, fê-lo. Naquele tempo, os homens tinham tempo para deixarem a alma falar e pedir que velas fossem acesas. E as mulheres acreditavam sem desconfiança. Por mais dificuldades que existissem em conseguir-se velas e chegar-se a capelas no topo de montanhas, ainda assim os pedidos eram concretizados porque vivia-se uma realidade que não era alimentada por ficção do cinema, nem de revistas. Consta que desse tempo da tropa o homem nunca quis falar, nem recordar, nem receber absolutamente nada. Ficou apenas esta estória do dia em que comandava um grupo de homens que tinham de chegar a determinado local. A meio do percurso, um dos homens desata a gritar que haviam todos de morrer, não tardava. O homem chegou-se perto deste soldado em agonia e apercebeu-se que este havia pisado numa mina anti-pessoal e, mal retirasse o pé de onde estava, a mina acabaria com a vida de qualquer ser dentro do seu perímetro de acção. O homem feito daquele barro do antigamente, onde a certeza era qualidade e não egocentrismo, pediu a todos os restantes soldados que se mantivessem calmos e se deslocassem para onde já não havia o perigo da mina. Assim foi. Depois, virou-se para o soldado que via agora a vida no seu término e de forma tão cruel que ele práprio acabaria com ela e sozinho. E disse-lhe, chegando-se o mais perto possível do soldado: ‘levanta o pé’. O soldado, incrédulo que até ao último minuto a vida ainda o podia surpreender, recusou-se a levar com ele mais uma vida. Mas o seu superior fez com que percebesse que a ordem estava dada e que levantasse de imediato o pé. Ao levantá-lo, tendo os dois fixado um derradeiro olhar um no outro, nada aconteceu. Era um milagre. E em vez de usar a estória para se gabar e receber os invencionados louros, o homem preferiu acender uma vela em nome daquele que ainda tinha esperança de ver.
Rossana Oliveira

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