Kudilonga: Crescidos fora de casa

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A menina do bairrinho pobre era agora uma jovem esposa e mãe que vivia, trabalhava e estudava no estrangeiro.

Continuava atenta à evolução do seu bairrinho e da sua terra que visitava sempre que pudesse. Constatara que, como ela, outros meninos do bairrinho se tornaram pais e chefes de família.

Muitos deles assumiram cargos de responsabilidade na terra que os vira nascer e que continuava a batalhar pela paz e estabilidade.

Também a terra, tal como os seus habitantes, estava a crescer e passava por fases de desenvolvimento desequilibradas: infâncias perturbadas, adolescências revoltadas, idades adultas de ambições desmedidas pretendendo adquirir num curto espaço de tempo riqueza, fruto de toda uma vida de trabalho.

Tais desequilíbrios e contradições eram consequência do seu percurso histórico e da pouca atenção que fora dedicada, no passado, à educação e ensino dos filhos da terra. Como todos os pais, os novos quadros do bairrinho pobre queriam o melhor para os filhos.

Uns debateram-se pela melhoria das escolas dos bairros em que cresceram e para onde mandavam as suas crianças colmatando as fraquezas do ensino por um acompanhamento exigente dos estudos em casa.

Outros, por convicção ou por possuírem meios financeiros, enviaram os filhos estudar no estrangeiro. Filhos da terra de todas as idades foram crescendo fora do berço! No estrangeiro, os jovens adultos ingressavam na faculdade, beneficiavam de técnicas, tecnologias e conhecimentos científicos que lhes permitiam completar a formação de base e a educação recebida em casa.

Alguns optavam por viver e trabalhar nos países em que estudaram. Os mais brilhantes ocupavam empregos dignos dos estudos que haviam seguido e os menos dotados eram sub-empregados em funções alheias às suas competências. Outros estudantes, bem formados, regressavam à terra natal contribuindo para o seu progresso.

A situação era mais complicada para os mais novinhos que, durante a infância, deixaram o lar aconchegante para irem estudar no estrangeiro. Muitas vezes viviam em casa de familiares, nem sempre muito atenciosos nem atentos, ou então em lares internos de reputação internacional que não lhes podiam dedicar o carinho e o calor da presença dos pais.

Ora, as crianças em África, mesmo nas cidades, são geralmente rodeadas pelos adultos, pais e outros membros da família alargada, avós, tios, irmãos, primos...

A criança é alvo de uma certa exigência compensada, em parte, por uma relativa liberdade já que o adulto pouco interfere no seu mundo imaginário e brincadeiras desde que os meninos respeitem as regras essenciais que lhes são fixadas e que andam à volta do cumprimento dos deveres, entre eles, o respeito aos mais velhos.

Algumas dessas crianças educadas no estrangeiro, a quem às vezes não faltavam largos bens materiais, viveram privações emocionais que nem sempre conseguiram ultrapassar na idade adulta.

Tais fraturas provocadas pela separação precoce da família, na qual ocupavam um papel central, talvez possam explicar a complexidade de certos comportamentos que manifestam na idade adulta, caracterizados por instabilidades emocionais, familiares ou profissionais, dificuldades de relacionamento com os outros e evolução harmoniosa do ser...

Com o passar dos anos, a vida do bairrinho, que continuava pobre, foi se apaziguando, ficando menos sobressaltada por ódios e rixas fratricidas e mais propícia para repensar a educação e a saúde dos filhos da terra.

Muitos meninos dos bairrinhos pobres de outrora e chefes de família destes novos tempos, alguns deles altos responsáveis da Nação, enviaram seus filhos para escolas estrangeiras instaladas no país. Gerou-se assim uma situação cujas consequências e repercussões não foram ainda avaliadas.

Estes alunos seguem programas, disciplinas, nomeadamente a História, do país ao qual pertence a escola estrangeira, alheias à História da sua própria terra e às realidades que os meninos vivem no dia a dia. Esta situação pode se agravar quando a língua ensinada na escola estrangeira é diferente da que o aluno fala em casa e na qual expressa as suas emoções ou sensibilidades.

É paradoxal ver um país soberano, com os seus usos e costumes, propor aos seus filhos uma alienação cultural provocada essencialmente pelo esmero dos pais que, a qualquer preço, pretendem proporcionar-lhes um mundo melhor que o seu. Na verdade, é difícil para os pais que somos entender que a melhor educação possível é a dispensada por nós, em função de nossas convicções e vivências.

O lugar dos filhos é junto dos pais a menos que questões de saúde exijam o contrário. Assim, num país rico ou pobre, com ou sem meios materiais, com ou sem escolas, a educação adequada para a criança é a que é dada com atenção e carinho pelos pais. Os erros de educação são inevitáveis e é cometendo-os, desde que não sejam irreparáveis, que os corrigimos.

A jovem professora do bairrinho pobre, no seu exílio no estrangeiro, estava convicta deste princípio que a orientara na educação dos seus próprios filhos.

Paris, 06 de Janeiro de 2012.




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