Luto africano

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Extinguiram-se duas das maiores figuras africanas do mundo da arte contemporânea.

Luto africano

 O costa-marfinense Frédéric Bruly Brouabré e o nigeriano J.D Okhai Ojkhere eram representantes de um vasto universo. Engrandeceram o lugar de África no mundo da arte sublinhando os traços distintivos das nossas civilizações. A herança que deixaram é um verdadeiro manifesto em prol de uma arte africana autêntica e vibrante.
A criação de um alfabeto foi a obra colossal de Frédéric Bruly Brouabré. Este artista plástico, nascido em 1923, teve a ideia genial de inventar o alfabeto Bete, segundo o mesmo, por imposição divina. Aperfeiçoou um sistema de 448 engenhosos signos que prestam homenagem à etnia Bete de onde é originário. Desse modo, conservou a memória do seu povo através da redacção de poemas, contos e textos profundamente impregnados da filosofia Bete. A sua vida artística foi dedicada a África e a desmistificar mitos muito conhecidos. Deixa uma obra original, densa e plena de sabedoria. Senhor de um talento unanimemente reconhecido, participou em diversas exposições. Deixou-nos a 29 de Janeiro último, aos 91 anos de idade, em Abidjan.
«O céu abriu-se perante os meus olhos e sete sóis coloridos descreveram um círculo de beleza em redor da Mãe-Sol; tornei-me Cheik Nadro: aquele que não esquece. »Na cabeleira das africanas podem ler-se todas as cosmogonias do mundo negro. Os seus penteados são obras-primas efémeras, onde reside a memória capilar e estilística dessas populações. O fotógrafo nigeriano J.D Okhai Ojeikere imortalizou as prodigiosas esculturas capilares que ornamentam a cabeça das mulheres do seu país. O seu trabalho quase obsessivo modificou consideravelmente a compreensão dos penteados africanos. As cabeleireiras e as entrançadoras são artistas eméritas que fazem o orgulho do Continente. As fotografias de Ojkere dão testemunho permanente desse talento.
É um facto que quando percorremos as metrópoles de África nos admiramos sempre com a graça e a elegância natural das mulheres. O penteado é uma linguagem complexa, particular, codificada. O olhar que este homem pousou sobre as tranças elaboradas e os seus ângulos rectos notabilizou uma encenação da beleza autenticamente africana, da qual as mulheres são doravante os principais garantes. É uma herança milenar. O antigo Egipto elevou à categoria de arte o talento, a perícia e o sentido da geometria e da matemática das suas cabeleireiras. Entre o seu nascimento em 1930 e o seu falecimento ocorrido a 2 de Fevereiro último em Lagos, este filho da terra percorreu o mundo. Tendo iniciado a sua carreira no Ministério da Informação, informou o mundo da beleza mais real que lendária da mulher nigeriana.
Não restam dúvidas de que estes dois artistas lendários passarão a fazer parte do grande Panteão africano.

Nós censamos

Sejam fortes e pacientes os passos
dos que buscam conferir
os grãos, vivas sementes, do meu balaio.
Não haja nos dezoito alfobres do meu viveiro
Um olhar turvo,
Uma voz estridente,
Um gesto antagónico
Que desfavoreça o meu, teu e nosso refrão:
Eu censo
Tu censas
Ele censa
Nós censamos
Vós censais
Eles censam.

Obs: A conjugação verbal é intencional.
Poema de Carlos
Cabombo, angolano,
Licenciado em Português pelo ISCED – Luanda.



O PATRIARCA

“homenagem ao ancião Agostinho André Mendes de Carvalho
- Uanhenga Xitu, por tudo quanto tem feito por Angola”

Como o vigor de uma nascente
cujo fio de água desafia montanhas,
desbrava a selva e desagua no mar,
dos alicerces de uma nação,
certo dia desabrochou árvore frondosa,
cujos frutos são linhagens que alimentam um país
com o mesmo legado: geração após geração;

Quando a história de todo um povo
se assemelha a um livro escrito com bravura
sacrifício e honra,
o que dizer de um Homem que na primeira pessoa
escreveu páginas da história com o próprio punho?

Quando algumas filosofias
adormecem no passado
imutáveis e intactas,
o que dizer da sabedoria que ultrapassa o tempo
e vislumbra os horizontes do hoje
no discernimento de uma abordagem franca?

E como emanação das raízes ancestrais,
tal e qual Mulemba Waxa Ngola,
persiste firme o sagrado tronco em cujos ramos
abundam orgulhosas gerações de Mendes de Carvalho.

Orgulhosas sim!...

E muitas outras gerações orgulhosas
do nome e do feito
Uanhenga Xitu, meu patriarca:
- Fala que eu te escuto!...

Orlando Kinguzo
Luanda, 25.08.2012






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