Mundial do Brasil sem Iniesta mas com Alberti

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D. Vicente del Bosque foi tão grande na derrota como nas vitórias.

Mundial do Brasil  sem Iniesta mas com Alberti
Mundial do Brasil sem Iniesta mas com Alberti

Iniesta, sozinho no centro do relvado, olhava a multidão como um poeta andaluz acabado de sair de uma balada de Alberti. As vaias e gritos de júbilo soavam longínquas aos meus ouvidos. Apenas ouvia a voz quente de Rosa Leon perguntando o que fazem os poetas andaluzes de hoje. Falam e estão sós. Cantam e estão sós. Amam e estão sós. Como a solidão de Iniesta no fim do jogo com o Chile.
Alberti apresentou-me os bares de todos os portos. E mostrou ao mundo que Havana é bela dentro de um piano. Foi assim que vi Cecília Ruiz Rosado teclando adios nonino, de Piazzola, no Palácio dos Capitães Generais.

(Ao sol escancarado do meio dia há lágrimas puras/derramadas na vala comum de mães desesperadas)

Iniesta caminha lentamente para fora do campo, olhando sem olhar, vendo sem ver, sorrindo sem sorrir. A multidão ululante pinta num cenário grotesco, a última cena do coronel da Guardia Civil. Já não há espadas nem cães danados. Não existe terra nem pão. E Alberti pergunta o que fazem os poetas andaluzes de hoje. Iniesta olha para Rosa Leon e canta. Lorca regressa às margens do rio Guadalquivir.
(os cães uivam angústias ao mistério da noite, meu amor)

Dollar Brand, aliás Abdullah Ibrahim, poeta sul-africano do piano, começou só ante o jazz. Tocava mas estava só. Cantava mas estava só. Gemia a sua solidão. Implorava às mãos e ao piano forças para enfrentar o apartheid. Mais tarde compareceu ante o tribunal da alegria com Buck Clayton, velho companheiro de Count Basie. Deve ter sido um dos últimos concertos do génio da trompete. Ele soprava harmonias, melodias, gritos e desditas. Mas estava só. Iniesta recebe um beijo de D. Vicente del Bosque. Rosa Leon pergunta angustiada o que fazem os poetas andaluzes de hoje. Rafael Alberti rouba a espada ao coronel da Guardia Civil. Millán-Astray dá vivas à morte e Lorca cai fulminado num pátio andaluz.

(mãe, nossa mãe, como se perdeu tão cedo/ e foi brevíssimo o inebriante sabor do teu leite!)

D. Vicente del Bosque sai de cabeça erguida do futebol. Perdeu um jogo mas não a dignidade. Olhou para as bancadas e acenou um discreto adeus para os adeptos que o apupavam. Depois da glória, a humilhação em público. O insulto fácil, o mau perder obtuso, a inglória raiva. Guardem as forças para derrubar a monarquia, que Alberti, Lorca, Rosa Leon ou Unamuno eram republicanos. Viva a República de Angola e meus saudosos e eternos irmãos que tão cedo partiram!

(A sorte nunca prestou contas ao destino/a morte tem asas brancas e corpo de menino)

Alberti lança chamas de poesia para destruir a tristeza do exílio. A morte endeusada por Astray e Paco Franco triunfou. Ai Carmela, ai Carmela! Encontrei numa comunidade anarquista, em Bordéus, o comandante Demétrio, que esteve à frente das guerrilhas antifranquistas, depois do triunfo do fascismo ibérico. Ele revelou-me as saudades que tinha dos moinhos do rio Buble, pertinho do Cambedo, na sua Galiza querida. Demétrio foi preso em combate, na raia portuguesa. Esteve preso no Tarrafal, depois no Forte de Peniche e de lá fugiu com Álvaro Cunhal.

(Nunca esqueçam, mães, os filhos tristemente pródigos/que escolheram andar perdidos da memória dos maternos regaços)

Alberti ofereceu estes versos ao poeta chileno Pablo Neruda: “não dormireis porque a morte é a vossa única vitória/jamais dormireis porque estais mortos.” O Mundial de Futebol do Brasil perdeu o futebol de Espanha. Iniesta lançou um olhar triste para o relvado vazio e sorriu.
Artur Queiroz

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