O lápis da menina-professora

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Em meados dos anos 70 o bairrinho pobre vivia tempos conturbados como todos os outros bairros e regiões do país.

As mudanças radicais que se anunciavam vinham alterar convicções e certezas. Os mais velhos perdiam as marcas dum passado recente, adquiridas em detrimento de suas próprias identidades, e desconheciam o futuro que lhes parecia incerto.

Viam, assustados, seus filhos, generosos, abraçarem "novos tempos e novas vontades".

A menina do bairrinho pobre, agora adolescente, identificava-se com estes novos tempos. Esqueceu temporariamente a Faculdade e voltou à escola primária do seu bairrinho para ensinar a ler e a escrever aos operários, empregadas domésticas, lavadeiras e outros trabalhadores que não tinham tido acesso à escola.

Gostava de ensinar e apercebeu-se, admirada, que preparava as lições de alfabetização dos seus alunos com o mesmo afinco que preparara as suas aulas na escola e no liceu.

Duas barreiras se lhe deparavam e, na sua idade e inexperiência, pareciam-lhe gigantescas: o fosso da idade entre ela e os adultos que alfabetizava e a dificuldade da luta contra o analfabetismo.

Toda a sua educação fora baseada no respeito pelos mais velhos que tinham sempre razão mesmo quando não a tivessem. Como iriam eles agora aceitar que ela lhes ditasse regras?

Começou a sua primeira lição de pedagogia, no terreno. Aqueles mais velhos não sabiam ler mas possuíam sabedorias que ela ignorava e que eles lhe foram transmitindo enquanto ela lhes revelava o novo mundo das letras e dos números.

E nessa troca de saberes, enriqueceram-se mutuamente, cada um se apoiando na sua experiência e competência. Afinal não fora necessário "ditar regras" mas procurar em si palavras e gestos simples para transmitir uma técnica que os adultos analfabetos desconheciam.

Com espanto, a menina-professora constatou que o lápis que ela manipulava distraidamente e com ligeireza se transformava num instrumento cortante que os alunos adultos, receosamente, ostentavam entre os dedos hirtos e tensos, tal um punhal trespassando as páginas do caderno.

A letra "a" ondulante, maleável, o "b" esbelto que se esticava vaidoso e que ela tão bem sabia desenhar, desafiavam os alfabetizados adultos que, após um dia de trabalho, se dirigiam corajosamente à escola, a mesma para onde tinham mandado estudar os filhos, hoje seus professores!

A jovem do bairrinho pobre entendeu a complexidade da arte de ensinar. Teve sempre uma empatia com os seus alunos e deles recebeu as primeiras lições empíricas de pedagogia que valiam certamente muitas aulas na Faculdade! Mas isso a jovem do bairrinho pobre só descobriu muito mais tarde quando defendeu a sua tese de pedagogia na Faculdade, já no estrangeiro, no seu exílio voluntário.
Paris, 05 de Janeiro de 2012

Mar de Margaridas

Doces olhos aguados
de mar
fitando o árido
dos meus olhos secos
num mar de margaridas
bebi água do teu olhar
e sorri

Flor
mulher
pétalas de mel
no olhar magoado
sal na doçura
e eu

Eu
me saceio
na frescura
do teu seio

Filipe Zau
Do livro “Encanto de um Mar que eu Canto” (1996)
Doces olhos aguados de mar fitando o árido dos meus olhos secos num mar de margaridas bebi água do teu olhar e sorri Flor mulher pétalas de mel no olhar magoado sal na doçura e eu Eu me saceio na frescura do teu seio

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