Também queria escrever... «Chora, Terra Bem Amada!»

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COULAYÁ é o nome imaginário de uma das mais belas cidades do continente africano. Virada para o Oceano, tem na pesca, a extracção do sal, madeira, bauxite e a cultura do ananás umadas principais riquezas, nas mãos de uns.A maioria da população é pobre e vive resignada à condição de continuar a sê-lo, atématar o coração.

COULAYÁ é o nome imaginário de uma das mais belas cidades do continente africano. Virada para o Oceano, tem na pesca, a extracção do sal, madeira, bauxite e a cultura do ananás umadas principais riquezas, nas mãos de uns.A maioria da população é pobre e vive resignada à condição de continuar a sê-lo, atématar o coração.
Como na maioria das cidades africanas, os habitantes de Coulayávivem do pequeno comércio. E espalham mercados de assados, fritos e descongelados por tudo quanto é canto. Onde houver um aglomerado de pessoas, lá estará um mercado. Os habitantes de Coulayácompram e vendem pelas ruas, ruelas e becos tudo o que lhes permita a mínima receita para comer hoje, porque, segundo a crença, o amanhã a Deus pertence.
Também é assim, regra geral, a vida de um africano:« vida negra», para aqueles que melhorcaracterizamestes povos condenados à condição de miseráveis: acordam sem saber o que comer;trabalham sema certeza do salário; e,adormecem desconhecendo que nessa noitepoderão ser vítimas de um enfarte...
Em Coulayá os mais poderosos esforçam-se para serem vistos a rezar em templos sagrados e a oferendar esmolas como obra de caridade. É uma farsa que lhes permite o título de «Homens mais capazes da Cidade!»; ou, então, se preferirmos, um gesto de cidadania comparável ao turista americano que, de óculos escuros e calções de caqui, passeia descontraidamente pelas calçadas europeias, atirando migalhas de milho aos pombos e andorinhas que,sem tecto, esvoaçam pelo céu...
Em cidades reais, dezenas de intocáveisquerem ser vistos como heróis e homens de boa vontade. Entregam à caridade a parte do dinheiro que pouca diferença lhes faz; dinheiro roubado; migalhas dos milhões e milhões não investidos em infra-estruturas básicas; dinheiro desertor e foragido da melhor remuneração dos seus empregados; os mesmosmilhões que obrigam meio mundo a correr, mentir, enganar e lutar para comer e enganar o estômago... porque, infelizmente, nesta vida semi-selvagem, a tal vida negra, mentir, enganar e lutar para comer é a regra do dia a dia: cada um por si, Deus por todos, salve-se quem puder!
- Porque é que todas as cidades africanas vivem o mesmo dilema?- pergunto ao anfitrião, meu amigo, em Coulayá.
- Não te rales. Não vais mudar nada! A África não tem solução.
- Como assim…?!
- Põe isto na cabeça – diz-me ele - Nós, os africanos, estamos condenados ao fracasso. Nenhum país governado por pretos se vai endireitar. Nenhum! Deus fez o homem com cinco dedos diferentes nas mãos, para representar o diferente destino dos cinco Continentes. Nós somos o dedo mendinho. Estamos condenados a pensar pequeno e a sermos os inferiores. O dedo maior, representa os brancos, mais poderosos, e os seus descendentes como o JerryRawlings ou o Obama. Eles são mais capazes do que nós!
- Não acredito! Faço tudo para contrariar esta tese. Digo-te: se um dia eu concorresse a Presidente escolheria como slogan «Dez anos para Mudar África – Um Compromisso Internacional!» E, faria tudo para desmentir isso!
O meu anfitrião respondeu-me com uma das gargalhadas mais bonitas e sonoras que já ouvi dele:
- Eh, eh, eh..., todos dizem o mesmo!!! É para enganar, meu amigo. Olha o outro, juroua mesma coisa:«Vou mudar...! Vou mudar...! Vou mudar!». Foi tudo para ludibriar, roubar e enriquecer. Nada mudou...
Inconformado, volto a atacar:
- Roubar?! Comigo, não! Podes ter a certeza que nunca. E quem roubar no meu Governo, ainda que sejas tu, vai para a cadeia. Serás o primeiro a ser preso e julgado...
O anfitriãonão se deixa intimidar. Volta a zombar de mim, às gargalhadas. Explica-me que perdeu toda e qualquer esperança na seriedade dos líderes políticos africanos deste tempo. E, num tom provocante, pressionou o botão do suicídio da Esperança Africana – o gatilho da derrota e da resignação!
- Vais prender todos, então! O africano foi criado por Deus para ser assim. Ele quer comer hoje, e deixar tudo para depois. Quer o imediato, gosta do excêntrico e é extravagante. Não te rales, meu amigo. Cuida de ti e deixa o mundo andar...!
Involuntariamente, estávamos a debater duas teses sobre a Esperança Africana:
Para o meu anfitrião, a África não tem futuro;Eu e outros, dizíamos que dez anos de boa governação poderiam ser suficientes para alterar o rumo do Continente.
Dez anos irreversíveis! Também tínhamos um sonho, a exemplo de Martin Luther King que nos anos 60 acreditou ser possível terminar com os preconceitos raciais, a favor da liberdade e da dignidade para todos. Porque não acreditar que a melhor governação é a solução para África?
- Porque não segues a mesma crença e determinação de Nelson Mandela, que fez cair o apartheid sem vinganças? - faço oúltimo esforçopara convencer o meu amigo, como se fosseum caçador cansado e faminto rogando a Deus para não morrer de fome.
Mas, ele é peremptório. Surdo e implacável, diz-me para ter cautelas e ser realista:
- Olha que o tempo de Mandela, SekouTouré, Nyerere, Agostinho Neto ou Sankarajá passou. Foram-se todos como a moda d’OsBeatles! A África de hoje perdeu os seus revolucionários, e perdeu-se! Os políticos já não querem fazer revolução nenhuma, como outrora. Querem dinheiro.Querem fazer negócios e ser milionários! Cuidado, meu amigo.
Senti um estranho calor na espinha...O meu anfitrião não era um homem qualquer:é perito e PCA de uma empresa bem-sucedida.Com mais de 40 anos de experiência profissional,éo tipo depeixe na água,homem sábio e senhor de muitas barbatanas. Sabe falar e sabe estar calado. Se é um ladrão, ou se faz tráfico de influências, não sei. Em casa,e na minha presença, vi-o recebergente graúda, a quem deu conselhos e pareceres. Pontual como a Lua e o Sol, diz que vem à minha busca as 18:00 e as 17:55 bate-me à porta: «Conconcon...!».
Diz-me ainda:
- É impossível mudares a África com discursos! E nem precisas ser político para começares com mudanças. Falta-nos uma grande burguesia para criar bons empregos, assim como uma classe média que lhe sirva de suporte,e, uma massa crescente, exponencial, de tecnocratas capazes de funcionar com autonomia – e um código de conduta obrigatória para todos. Sem isso, meu rapaz, vais dar o teu show, vais ser aplaudido várias vezes, mas, depois, arruma as botas e vai-te embora, como nos actuais jogos de videogame.E, faz o «logout», antes que cometas as mesmas asneiras que os outros ladrões e parasitas do videogame...!
Mesmo assim, apesar da sua retórica e ironia, o meu bom amigo não me convenceu.
O mal dele é pensar que viver e crescer mal e sem berço é sinónimo e é o destino do verdadeiro africano. Em dez anos, tudo isso pode começar a mudar sem retrocessos.Eu acredito.

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