Tu esa mu xalesa, Rui Legot

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RuiLegot nasceu em Luanda e cresceu num ambiente circundante em que o nacionalismo era oquotidiano da sua vida. Basta somente lembrar que os vizinhos dos seus pais se chamavam, entre outros, Viriato da Cruz ou Mário António de Oliveira, expoentes do nacionalismo angolano moderno.

Tu esa mu xalesa, Rui Legot
Rui Legot

Foram eles que disseram: “Vamos descobrir Angola.”
Rui Legot aprendeu ouvindo estes mais velhos dizer que Angola devia mudar. Assim, quando chegou ao Liceu Salvador Correia, os seus colegas, que se transformaram em amigos, foram José Eduardo dos Santos, Roberto de Almeida, Elísio de Figueiredo, Pedro de Castro Vandúnem ( Loy), Carlos Belli Bello. E limito-me a citar aqueles cuja trajectória permitiu que fossem aspirados pelas luzes da ribalta. Mas, muitos outros anónimos ainda aí estão para testemunhar da generosidade e da combatividade de Rui Legot.
Contudo, Rui Guimarães Legot sempre gostou de aliar a teoria à prática. E, como homem prático, nunca se contentou do saber. Era preciso fazer. É assim que foi estudar na Escola de Regentes Agrícolas do Tchivinguiro que, na época colonial, preparava o ensino médio de agronomia. Dentre os seus colegas da época, podemos também citar Buta Lutucuta.
Mas, o tempo passa depressa e a luta pela independência de Angola se acelera. Quando a PIDE, polícia política de Salazar, envia para a prisão Maria da Conceição Legot, irmã deRui Legot, os pais deste compreendem que chegara o momento de enviar Rui Legot para Portugal, onde iria prosseguir os seus estudos.
Rui Legot é porém um espírito livre e autónomo. Chegado a Lisboa, compreende depressa que novos horizontes se abrem para ele. O reencontro com Rui Pereira, que foi o último presidente da Casa dos Estudantes do Império, com Rui Mingas, que estava a musicar os poemas de Mário de Andrade, de Agostinho Neto e de António Jacinto, o encontro com o grupo Ouro Negro, abrem-lhe a via para a utilização da música de contestação, em prol do desenvolvimento da música angolana de intervenção. Rui Legot, cria, então, o grupo de Intervenção Duo Ngola. Era a época em que era preciso ganhar dinheiro para pagar os estudos.
Mas, na época, não se contestava o colonialismo português sem se sofrer as consequências. Rui Legot é chamado para cumprir o serviço militar nas colónias portuguesas de então. Ele recusa. E durante dois anos vive na clandestinidade em Portugal. Mas, como diz o poeta Manuel Alegre: “Um homem também se cansa. E quando se cansa, vai para terras de França.” Rui Legot segue essa via. Chega a Paris. É acolhido por Mário Clington, um veterano da contestação músico-cultural do colonialismo português. Mais tarde, ambos acolherão outros artistas: Bonga, Carlos do Nascimento, Teta Lando....
Autónomo e rebelde, Rui Legot cria uma estrutura autónoma para garantir os seus meios de produção e de exibição. Trabalha com artistas franceses, brasileiros, portugueses. Vimo-lo várias vezes no Restaurante da Chica, no Discophage, com o Rui Merengue, com o Rui Meireles, com o Bonga, mas também o vimos nos salons do SofiteL ou do Meridien e outros grandes hotéis, e sempre com um jovem acompanhante: António Margarido.
Entretanto, Angola chega à independência. Pedro de Castro Vandúnem ( Loy) designa Rui Legot como encarregado da divulgação da cultura angolana em França. Luís de Almeida, embaixador de Angola, cria um gabinete para Ruí Legot na embaixada. É apartir do seu gabinete que Rui Legot organiza espectáculos de grande vulto, com a presença de vários artistas angolanos, tais como Dionísio Rocha ou Carlos Lamartine. Rui Legot organiza a difusão das artes culinárias angolanas em França e prepara a criação de uma Câmara de Comércio franco-angolana, que infelizmente nunca veio à luz.
Quando o embaixador Boaventura Cardoso, homem de cultura, chegou a Paris, as condições estavam assim reunidas para a criação de um Centro Cultural Angolano, sob a forma de uma Casa de Angola.
Rui Guimarães Legot desempenhou um papel activo na criação da Casa de Angola em França. Ele nunca aceitou o racismo, o tribalismo, o regionalismo, nem as diferenças culturais. Ele sempre lutou para que a Casa de Angola fosse o reflexo da sociedade angolana: múltipla e diversa.
Rui Legot foi o embaixador itinerante da Casa de Angola em França. Era ele que partia para levar as informações até Angola, até Portugal. Ele é que contactava os prelectores dos colóquios da Casa de Angola. Era ele que se ocupava também da logística e do conforto dos nossos amigos e convidados.
Rui Legot não era um homem de pedir. Se ele era capaz de pedir para os outros, ele nunca pedia para ele mesmo. Rui Legot não era somente um homem generoso. Ele encarnou a generosidade e a modéstia. Basta somente ver a quantidade e a qualidade das pessoas que ele conhecia, para imaginar o quanto ele teria podido acumular de poder e de riqueza, se ele quisesse.
Mas, Rui Legot estava, sobretudo, muito mais ligado à sua família. À memoria do seu pai que ele venerava e à sua mãe que ele adorava.
Foi sobretudo desde que a mãe faleceu, que Rui Legot começou a declinar. Rui Legot não era o mesmo homem: jovial, alegre, pronto para as grandes noitadas com os amigos. Rui Legot tornou-se taciturno e triste. A doença começou a ganhar terreno. Rui Legot lutou contra a doença e acabou por perder a batalha.
Rui Legot morreu!
Mas fica connosco a recordação; a história daquele que foi um bom patriota, um amigo, um camarada.
Para muitos de nós, Rui Legot era sobretudo um artista: guitarrista, cantor.
E efectivamente, Rui Legot estudou música desde muito jovem com o grande músico e professor de música que foi Guilherme Assis, destacada figura do meio cultural e artístico de Luanda dos anos cinquenta.
Não podemos, pois, despedirmo-nos do Rui Legot, sem ouvirmos uma vez mais a sua voz dizendo-nos adeus.
Adeus Rui Legot
Repousa em Paz .
E ouvimos Ruí Legot cantar:
Tu esa mu xalesa
Ji henda ja vulue
Tu banga kiebiée
Tu esa mu xalesa.

PÁSCOA, PESSACH, PRIMAVERA

Este é o tempo
de renovar a poesia.
Actuamos diariamente
como poetas e pessoas
de esperança.
Mas chega a estação das flores
e temos de colaborar
com um jardim de amor,
distribuindo as alegrias
que inventamos
dançando e voando com
as novas borboletas monarcas
que regressam.
Que a Páscoa, Pessach
e a Primavera possam
renovar os seus desejos
de felicidades.

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