Um desejo para o novo ano

Envie este artigo por email

Neste dealbar de novo ano torna-se imperioso refletirmos sobre o estado da cultura nacional, particularmente, sobre o lugar que cada uma das categorias artísticas ocupa no panorama mediático.

Não se trata de uma reflexão monista, presa ao facilitismo da mesmice e do fastfood cultural. Tem de ser uma reflexão em torno das dinâmicas de produção e divulgação cultural, sob os auspícios dos valores da nova Angola. Precisamos diversificar os olhares sobre o que consideramos "produto cultural".

Um olhar capaz de enxergar além das manifestações mais populares. Um olhar que aglutine, num só projeto nacional, um leque mais abrangente das artes e as trate com a igualdade merecida. O tratamento dado às diferentes disciplinas artísticas no nosso país é, ainda, desigual.

As assimetrias existentes, por exemplo, entre a música, cinema e dança, por um lado e a tecelagem, pintura e escultura, por outro são gritantes. As primeiras três são mais divulgadas e possuem mais produções, ao contrário das três seguintes que relegadas à uma posição simbólica, cumprem uma função alegórica.

Grosso modo, é este o destino dado ao folclore nacional, que tenta sobreviver através de alguma literatura e adaptações teatrais das nossas fábulas. Este quadro menos bom tem de melhorar e, neste sentido, o jornal cultura (que vai agora no seu terceiro ano) é um significativo contributo para restituição desta igualdade, por se apresentar como espaço de reflexão e interdisciplinaridade artística.

A nova geração pouco ou nada sabe sobre o conjunto das nossas tradições, estórias, lendas e provérbios. Tudo porque, o folclore, tal como a pintura e a escultura não parecem "industrializáveis" aos olhos dos investidores, que se centram em commodities mais apetecíveis como a música e as telenovelas.

Este quadro, além de prejudicar os seus executores ­ que se debatem com a baixa procura das suas produções ­ empobrece a imagem do nosso mosaico cultural, pois ao subalternizar estas ocupações "mais manuais" ou "tradicionais", apresenta ao mundo uma prespectiva reducionista da cultura nacional. Existem cada vez menos escultores, pintores e artesãos.

Os poucos existentes jazem no anonimato porque trabalho deles é, ainda, pouco divulgado. Não é difícil confirmar isto. Se sairmos às ruas de uma qualquer cidade desta Angola e perguntarmos ao cidadão mediano o nome de um artista plástico, escultor ou artesão. A probabilidade de citar um nome para cada categoria é quase nula.

Muitos de nós frequenta espetáculos musicais, assiste telenovelas, fica em longas filas para comprar o cd do músico preferido, mas dificilmente visita uma galeria ou Iatelier de arte. Precisamos mudar esta atitude em 2014. Há muito saber ancestral (e atual) nas peças de artesanato para não falar da sua beleza e natureza telúrica.

Todos podemos aprender e ganhar muito com o trabalho dos artesãos. Para tal é preciso resgatar o seu lugar no contexto das demais artes. Neste novo ano, vamos todos adquirir mais peças de arte, como quadros e esculturas. Não deixemos que não seja apenas o estrangeiro a fazê-lo.

Vamos promover e participar mais de feiras, exposições, congressos, visitas a ateliers etc. E, o executivo poderia intensificar a sua ação interna junto da sociedade, apoiando este tipo de iniciativas e quiçá, pensar mesmo na criação de uma frente de diplomacia cultural que internacionalize ainda mais os nossos pintores, escultores e artesãos, num esforço conjugado com a indústria cultural (empresários nacionais) que poderá intensificar a produção e divulgação nestes domínios. Os ganhos serão incomensuráveis. Este é meu desejo para 2014.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos