Uma escola para quem e para quê?

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Aquando das suas visitas à terra e familiares, a professora do bairrinho pobre agora avó de três meninos, adorava ir à praia e ficar-se a contemplar o vaivem das ondas, umas calmas outras inesperadamente revoltas, como se quisessem prevenir os filhos da terra que o mar é coisa séria que deve ser respeitada.

Ao longe, os pescadores dormitavam na areia morna da praia sob toldos toscos ou em cabanas sem portas. Os mais velhos, sentados, concertavam tranquilamente as redes para a pesca nocturna. Outros, no meio do mar, ximbicavam sem esforço as frágeis canoas, embalados pelo doce balançar das ondas, nos dias de calmia.

A professora do bairrinho pobre gostava de passear à beira da praia num exercício matinal que lhe fazia bem à alma e ao corpo. Distraidamente, olhava para os meninos despreocupados que, nus e soltando gargalhadas contagiantes, entravam pelo mar dentro, davam fímbias, executavam piruetas que faziam concorrência aos peixinhos à volta.

Que diferença entre essa liberdade de movimentos e os gestos tolhidos pelos agasalhos volumosos que entravavam os meninos da mesma idade na Europa, sua terra de exílio! Lembrou-se das aulas de psicologia e não pôde deixar de estabelecer comparação entre as duas infâncias, uma em África e outra na Europa.

Pedagogos e psicólogos defendiam a tese de que as crianças em África, pelo menos até aos seis anos de idade, revelavam um desenvolvimento psicomotor precoce em relação às crianças da mesma faixa etária na Europa.

Explicavam essa precocidade pela liberdade dos movimentos e condições climáticas do meio em que evoluíam os meninos em África, pelo longo período de amamentação e o contacto privilegiado que a mãe, em África, mantinha com o filho, a presença permanente e atenta dos adultos à volta da criança.

Era-lhe dada carta branca até aos seis anos, idade da razão em que o menino, sobretudo, integrava o mundo dos adultos, ou melhor, dos homens, guiado pela mão firme do pai que o iniciava à sua profissão ou ao universo masculino, seus códigos e realidades.

Já a menina, continuava as pegadas da mãe e eram-lhe exigidas tarefas domésticas que a preparariam para a vida de esposa, mãe e dona de casa. Esta realidade talvez se verificasse ainda no campo ou em sociedades rurais e tradicionais mas já não era tão linear nas cidades de África, em evolução permanente, influenciadas pelo Ocidente, nomeadamente através da televisão e da internet, cogitava ela.

Aqueles meninos ali na praia, provavelmente moradores das redondezas, viviam alheios ao mundo que prosseguia sua rota sem esperar por eles. Nada sabiam do que no mundo acontecia e cujas consequências, com a globalização, teriam mais cedo ou mais tarde, repercussões em suas vidas.

Passava horas a fio a observar os meninos construir castelos de areia, enrolar na areia branca da praia seus corpos magros acariciados pela água fresca do mar. Outras vezes, inexplicavelmente, os miúdos ficavam ali sentados, quietos, pensativos, fitando o horizonte. Em que pensariam eles? O que seria deles se continuassem privados de escola, sem se dedicarem a uma tarefa que lhes estimulasse o espírito e lhes espicaçasse o engenho? As brincadeiras das crianças são salutares e até necessárias, pois permitem-lhes evadirem-se, construírem mundos imaginários à semelhança do que vêem fazer os adultos.

Para ser construtiva, a actividade lúdica deve completar ou servir de suporte a uma aprendizagem, feita a partir da vivência da criança, de preferência. O que mais estranhava a professora do bairrinho pobre, era a falta de curiosidade daquela criançada; raramente se aproximava dos mais velhos, pescadores entregues a suas lides mesmo ali a seu lado.

Deu com ela a pensar que estes meninos, assim entregues a suas brincadeiras, andavam na escola da preguiça e da ociosidade, grandes inimigas da criatividade e do gosto pelo trabalho. Todos os anos, após a festa de fim de ano, a 1 de Janeiro, a praia tornava-se numa lixeira contrastando com o céu de um azul puro e luminoso! O mar generoso, límpido e transparente, continuava convidativo. Porém, ondas de lixo invadiam-no, por vagas.

Eram lixos de várias origens, essencialmente plásticos e latas que poluiriam o mar por longos anos. No seu passeio matinal, a professora do bairrinho pobre, ia catando o lixo que encontrava pelo caminho. Olhou para os meninos, ocupados como sempre em suas brincadeiras favoritas, nadando no meio de uma água imunda sem que tal os incomodasse.

Parou, falou com eles e sensibilizou-os para a necessidade de manterem a praia limpa já que era um recurso que a natureza lhes oferecia gratuitamente e que eles deveriam, em troca, preservar. Ao comportarem-se de maneira irresponsável como eles o faziam, importando-se pouco com o lixo que os rodeava e para o qual eles também contribuíam, mais tarde os seus próprios filhos não mais beneficiariam da beleza dessa praia, da limpidez do mar que a todos pertencia pois os recursos naturais não são eternos e também se cansam sobretudo quando são maltratados. Falou-lhes da necessidade de proteger o ambiente, de viver num mundo sustentável e da dificuldade que tinham, o mar e outros seres vivos que nele viviam, peixinhos, tartarugas... em eliminar o lixo que as pessoas produziam.

Os meninos ouviam atentos, de olhos muito abertos, como se ouvissem tais evidências pela primeira vez. Este episódio convenceu a professora do bairrinho pobre, da urgência e necessidade de propor uma escola diferente e viável; uma escola que ensine a criança a pensar a partir do que ela vê a seu redor; uma escola prática, dinâmica, pluridisciplinar, aberta para o mundo de hoje; uma escola para as crianças que dela mais necessitam por não disporem em casa de ensinamentos elementares, fundados na observação directa da realidade.

Essa escola deverá ser concebida para educar o cidadão que, ao cuidar de si, seus filhos, sua família, sua casa, seu bairro, sua terra... preservará o meio que o rodeia e velará ao mesmo tempo pelo equilíbrio do planeta.


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