Uma vida no exílio

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A jovem do bairrinho pobre levava a sério as tarefas que assumia numa época que sabia crucial e decisiva para o seu país.

À noite continuava a dar aulas de alfabetização no seu bairro e durante o dia iniciava os meninos do liceu às subtilezas da língua portuguesa. Eram dois públicos muito diferentes.

Dum lado, adultos analfabetos inseridos no mercado de trabalho, angustiados perante o lápis e o caderno; do outro lado, crianças desenvoltas que acabavam de sair da escola primária, de cabeça aberta, prontas para novas aventuras.

Em comum tinham todos a avidez de saber! Eram alunos, exigências e pedagogias diferentes para uma jovem professora, uma aluna recém saída do liceu sem a competência que só a experiência e a prática didáticas conferem.

Os primeiros anos de ensino foram dolorosos e frustrantes pois gostava de ensinar e sabia que lhe faltavam os rudimentos para exercer corretamente a profissão de professora.

Estava ciente de que quando se aprende noções erradas dificilmente se as corrige. Professora inexperiente, defendia já a ideia de que a educação dos mais pequeninos, desde a iniciação, deveria ser confiada a professores bem formados detentores de uma pedagogia adequada.

Só assim os meninos adquiriam conhecimentos sólidos que guardariam pela vida fora. A jovem professora temia transmitir ensinamentos errados aos alunos, por isso lia e relia as lições, estudava gramáticas, simplificava regras, desencantava exemplos concretos, palpáveis, que falassem aos alunos...Era exatamente assim que teria gostado que lhe tivessem ensinado.

E ao explicar aprendia e aprofundava o que já sabia. Quanto mais ensinava mais aprendia e se convencia de que carecia de uma formação que o seu país não lhe podia dar. Encorajada pelo marido, animava-se com a perspetiva de poder frequentar uma faculdade no estrangeiro, realizando assim o seu sonho adiado.

Deixar a terra, família, amigas era para ela um tormento e logo se desanimava e desistia. Um dia ganhou coragem e lá se foi, com marido e filhos, para um exílio voluntário numa terra desconhecida carregando consigo a fratura da separação.

Foi confrontada com uma língua, estruturas de ensino e costumes diferentes dos da sua terra. A vontade inabalável de realizar seu sonho animava-a quando se sentia abatida.

No seu bairrinho era uma menina conhecida e apreciada por todos. Na imensidão do novo mundo, que ia descobrindo, era uma simples estudante, sem bolsa nem recursos, a trabalhar para sobreviver e pagar os estudos.

Então estudava o dobro, o triplo, no desejo de colmatar as lacunas. A prática adquirida nas aulas que dera desde muito nova serviu de suporte à reflexão teórica sobre pedagogias inovadoras, métodos e metodologias de ensino ensinadas na faculdade.

Para seu grande espanto, descobrira que as experiências vividas nas escolas do seu bairrinho conferiram-lhe pragmatismo e autoridade que expunha com convicção na faculdade.

Compreendeu assim que a vida era um somatório de diversas experiências que se sucedem numa relação dinâmica entre elas. Nada na vida acontece por acaso e tudo o que vivemos explica o que somos e como nela nos situamos.

A menina do bairrinho pobre formou-se em pedagogia e durante mais de vinte anos formou alunos, abriu horizontes a meninos inocentes, acompanhou mulheres emigrantes na luta contra o analfabetismo e obscurantismo, iniciou e revelou segredos da língua portuguesa a quadros estrangeiros atarefados, diplomatas, técnicos... O prazer de ensinar, para ela, e de aprender, para os seus alunos, era idêntico. Nutria-os o mesmo entusiasmo, a mesma vontade de vencer a ignorância.

Paris, 05 de Janeiro de 2012

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