África e o "evangelho de um novo caminho"

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É com Nok Nogueira que abro o "tempo africano" tempo de canção, tempo de "hino vinte e cinco de Maio pela reinvenção do caminho", eis a melodia "ó África ó alma ó muxima como reinventar a festa da kixima"? Reinventando o pensamento da negritude? Do panafricanismo? Provavelmente, pois assim como Nok, subscreveremos "a memória de uma África envolta em telas de amor".

Na verdade, Aimé Césaire pensava a negritude numa dimensão tridimensional: o homem negro tem de assumir-se negro com orgulho, isto é, identidade, a ligação permanente com a Mãe-áfrica, isto é, a idealidade, e o sentimento de união e identidade comum entre todos os negros, isto é, a solidariedade. É assim que inspirados por esse ideal, cantamos em Mátria "oh minha África/anelo teus doces beijos/ no dúlcido amplexo da unidade fraternal..."

Um protesto intelectual, uma tomada de consciência de que nós, africanos, contribuímos deveras para o progresso da Humanidade deve persistir para desmistificar os mitos e preconceitos que ocultaram ao mundo a verdade histórica sobre África. Juntemo-nos espiritualmente aos sábios Cheikh Anta Diop, Joseph Ki-Zerbo, Téophile Obenga e outros para escrever "alegrias no rosto negro", pensar "Senghor Neto Lumumba Cabral Mandela/elefantes da liberdade" e anular "a anorexia que graça na planície... onde abutres almejam o SOL". "Ó negro de África/negros de todo o mundo" eis o chamado África, para avançar o tempo e arregaçar "no calendário a essência/ a eloquência" vencendo assim com o grito do hungo e subscrevendo sempre a irmandade.

O "evangelho africano" deve evidenciar a educação pois no pensamento de Du Bois, ela é instrumento de luta e de ascensão do homem negro. A cultura, a história, a literatura, as tradições africanas devem constar do projeto político-pedagógico das sociedades africanas. Deve-se ainda reivindicar permanentemente os direitos inalienáveis à vida, à liberdade, à felicidade, assim como a garantia dos direitos de cidadania mantendo o sonho de Luther King.

Estou com o professor Jorge Macedo, filósofo, etnomusicólogo e escritor, ao escrever que a frente cultural africana não deve se "deixar embrulhar pelos traidores africanos colocando África contra África, os seus detratores prolongando neocolonialismos de toda a espécie em espaços débeis do período africano pós-independência, feridos de guerras civis, carências, contradições, má governação, fomes letais..." e outros males. Devemos ainda olhar para África sob um novo olhar, com os negros na diáspora, de modo a desmistificar preconceitos e a dominação cultural eurocêntrica.

Como angolanos, já é hora de vislumbrarmos a dimensão africana da nossa cultura e não aceitarmos rótulos colonizadores de "povo sem cultura e a civilizar". Acertaram no recanto dos nossos valores o que afetou a nossa característica solidariedade, hospitalidade. É mister pois o resgate dos nossos valores angolanos logo, africanos bantu e o dever de pensar e fazer por nós mesmos. Já é hora de emancipar as nossas mentes da escravidão cultural, pensando Bob Marley.

E com o Nok fecho chamando-te "ó bantu cordão umbilical retrato de pura devoção" "tu és beleza transcendental das flores com que enterrámos/ nossos heróis// o Maio anuncia o regresso da bonança na noção das palavras..." assim deverá ser nesse "tempo africano" o desbravar no caminho um novo evangelho, um evangelho de PAZ.

VIVA A ÁFRICA Mulemba waxa Ngola, 08 de Maio de 2012. 01h49´

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