Cheikh Anta Diop: A estratégia de desenvolvimento do continente africano

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Como elaborar uma verdadeira estratégia de desenvolvimento do continente africano: educação, saúde, defesa, energia, investigação, indústria, instituições políticas, desporto, cultura etc.?

Cheikh Anta Diop

Cheikh Anta Diop demonstra que para se obter as respostas pertinentes a esta interrogação fundamental é necessário um conhecimento da história o mais objetivo possível, recuando no tempo tão longe quanto possível.

É nesta primeira grande tarefa que Cheikh Anta Diop se concentra: a de restituir a história do continente africano, a partir da pré-história, através de uma investigação científica pluridisciplinar. É, por isso, o refundador da história de África.

Além do conhecimento do passado real de África e da humanidade em geral, Cheikh Anta Diop atribui aos trabalhos que desenvolve as quatro finalidades que se indicam de seguida.

1. A recuperação da consciência histórica africana, ou seja, da consciência de ter uma história. A recuperação desta consciênciahistórica implica que a egiptologia seja desenvolvida na África negra e que a civilização egípcio núbia seja reanalisada em todos os domínios pelos próprios africanos.

"Só o enraizamento de uma disciplina científica desta natureza (a egiptologia) na África negra permitirá compreender um dia a singularidade e a riqueza da consciência cultural que pretendemos suscitar, bem como a qualidade, a amplitude e o poder criativo da mesma."

"Na medida em que o Egipto é a mãe longínqua da ciência e da cultura ocidentais, como se pode deduzir pela leitura deste livro, grande parte das ideias que batizamos estrangeiras não são muitas vezes mais do que as imagens deturpadas, invertidas, modificadas, aperfeiçoadas das criações dos nossos antepassados: judaísmo, cristianismo, islamismo, dialéctica, teoria do ser, ciências exatas, aritmética, geometria, mecânica, astronomia, medicina, literatura (romance, poesia, drama), arquitetura, artes etc. [...] Tal como a tecnologia e a ciência moderna vêm da Europa, na Antiguidade, o saber universal luía do vale do Nilo para o resto do mundo e especialmente em direção à Grécia, que servia de elo intermediário. Consequentemente, nenhum pensamento é, na sua essência, estrangeiro em África, terra em que foi criado. É pois num contexto de total liberdade que os africanos devem usufruir da herança intelectual comum da humanidade e não se deixar guiar unicamente pelas noções de utilidade e de eficiência."

"O homem africano que nos compreendeu é aquele que, após ter lido as nossas obras, terá sentido nascer em si um homem diferente, com uma consciência histórica, um verdadeiro criador, um Prometeu portador de uma nova civilização e perfeitamente consciente do que a terra inteira deve ao seu génio ancestral em todos os domínios da ciência, da cultura e da religião" (C. A. Diop, Civilisation et Barbarie).

2. O restabelecimento da continuidade histórica, ou seja, a restituição, no espaço e no tempo, da evolução das sociedades e dos Estados africanos, especialmente desde a pré-história até ao século XVI, o período menos conhecido. Cheikh Anta Diop insiste, nos seus escritos, no facto de a investigação sócio-histórica estar longe de ser concebida como uma retirada ou como uma mera deleitação do passado.

"A função da sociologia africana é fazer o balanço do passado para ajudar a África a enfrentar melhor o presente e o futuro." (C. A. Diop, Antériorité des civilisations nègres ­ Mythe ou vérité historique ?)

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