Da autonomização política à dependência económica

Envie este artigo por email

Após a II Guerra Mundial, com as lutas pela independência em África, surgiu, nas décadas de 50 e 60, o sonho de liberdade e de prosperidade.

Patrice Lumumba, o líder da independência congolesa, a firmava, naquele período, que nunca iriam esquecer que a independência tinha sido conquistada com lágrimas, fogo e sangue e que, após oitenta anos de colonialismo, iriam demonstrar "o que o homem negro é capaz de fazer quando trabalha pela liberdade"[MUNARI: 31]. Era ideia comum que as nações recém-formadas em África estariam determinadas ao sucesso. África seria política, cultural e economicamente livre a partir de processos de reconstrução a serem implementados em novos moldes.

Para Leopold Sedar Senghor, do Senegal, ao lado da reconstrução económica tornar-se-ia necessário "descobrir novos valores culturais, próprios da civilização negro-africana: emoção e simpatia, ritmo e forma, imagens e mitos, espírito comunitário e democrático" [Ibidem].

Contudo, o sonho da Grande África durou pouco. Um fracasso também associado às disputas internas entre fações rivais, às guerras pelo controlo do Estado, ou ainda às experiências políticas frustradas. Os chamados "pais da pátria", entre outros homens da envergadura de Touré, Kenyatta e Nyerere, "(...) viram mitos de um passado remoto que serviu para lançar no cenário internacional uma turma de líderes tristemente famosos pela incompetência, corrupção e falta de escrúpulos" [Idem].

Mas, também é certo, que os líderes dos novos países africanos pensavam que, finalmente, poderiam entrar num processo de trocas justas e equilibradas com os países do Norte, pautadas pelo reconhecimento integral das suas soberanias, respeito mútuo e não ingerência nos seus assuntos internos. Um intercâmbio onde os países do Sul exportassem as suas matérias primas, de acordo com as necessidades industriais dos países do Norte, recebendo em troca bens industrializados, essenciais para o arranque do crescimento económico de que necessitavam, para o desenvolvimento dos seus respetivos povos.

Porém, tal não aconteceu, porque as matérias-primas exportadas foram valendo cada vez menos nas relações procura/oferta e custo/benefício. Eram necessárias cada vez mais matérias-primas para um número cada vez menor de produtos manufaturados dos países do Norte. Tal facto provocou um claro desequilíbrio na balança comercial, o que levou os economistas dos países em desenvolvimento a reconhecerem a deterioração crescente nos termos de troca.

O relatório Cuidar o Futuro, confirma esta a firmação ao referir que, de facto, houve investimentos ruinosos assim como práticas corruptas. Contudo, também explicita que foi assustador o declínio nos preços das matérias primas, o que resultou numa forte deterioração dos termos do comércio internacional e afetou gravemente os países em desenvolvimento: "em 1993, eram 32 % mais baixos do que em 1980, em relação ao preço de bens manufaturados eram 55% mais baixos do que em 1960" [WORLD BANK, cit in, COMISÃO INDEPENDENTE POPULAÇÃO E QUALIDADE DE VIDA: 52-53].

O ano de 1980 representou a aceleração de uma violenta crise económica para os países não industrializados, mas os primeiros sinais dessa crise, de acordo com o Banco Mundial, começaram a sentir-se um pouco mais cedo em África; i.e., nos últimos anos da década de 70. Neste continente, a agricultura, que representa a maior parte da produção (cerca de um terço do total), foi primeiro atingida pela seca, que assolou inúmeros locais entre 1968 e 1973. Posteriormente, ainda no início dos anos 80, seguiu-se a subida dos preços de energia, que coincidiu com o decréscimo dos preços agrícolas e com "uma desastrosa gestão da economia, em particular no sector agrícola" [EMMERI : 111]. Paralelamente, a taxa de investimento na África subsahariana desceu de tal forma que, em 1983, os mais de 18% de rendimentos dos anos 70, passaram para menos de 15%. Em 1990, África tinha já o rendimento mais baixo de todas as regiões em vias de desenvolvimento. A esta estagnação económica associou-se um rápido crescimento demográfico que, no seu todo, levou a uma progressiva deterioração dos níveis de vida das populações [BANCO MUNDIAL (1990) :20]

O rendimento per capita no continente africano desceu cerca de 4% ao ano, entre 1980 e 1984. Em 1990, já era inferior ao rendimento per capita de 1970. A dívida pública externa contraída aumentou onze vezes entre 1970 e 1984 e os pagamentos do serviço da dívida praticamente quadruplicaram; i.e. passaram de 1,2% para 4,4% do PNB. As despesas com a administração central aumentaram e as receitas foram-se mantendo mais ou menos estacionárias. Os défices orçamentais passaram a atingir cerca de 10% do PNB [Idem].

Para cobrirem os seus défices, os países em desenvolvimento viram-se forçados a recorrer sistematicamente a empréstimos dos países industrializados e de instituições financeiras internacionais, como o Banco Mundial e o FMI. Desta forma endividaram-se ainda mais e tornaram-se ainda mais pobres. O fosso, que já os separava dos países industrializados, foi progressivamente alargando e restou-lhes apenas manifestar o desejo de uma nova ordem económica mundial [SANTOS BENEDITO: 19-20].

Na verdade, o desejo de uma nova ordem económica internacional vinha já sendo reclamado nos anos 70 e 80, ainda antes da implementação dos Programas de Ajustamento Estrutural das instituições de "Bretton Woods". Atualmente, não há nenhum país africano ao sul do Sahara que, para tentar sobreviver à conjuntura económica imposta pela globalização, não seja dependente de Programas de Ajustamento Estrutural. Mas, o que, na prática, se verifica é o investimento para o desenvolvimento dos países africanos beneficiar, apenas e cada vez mais, os países já desenvolvidos [COMISSÃO INDEPENDENTE POPULAÇÃO E QUALIDADE DE VIDA: 53].

O Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2000/2001 do Banco Mundial apresenta também um conjunto de dados que justificam esta a firmação. É um facto que, desde 1960, a esperança média de vida nos países em desenvolvimento aumentou, em média, 20 anos; A taxa de mortalidade infantil, desde 1960, diminuiu em mais de metade; O ingresso escolar entre 1990 e 1998 aumentou 13%; o número de pessoas em situação de extrema pobreza baixou para 78 milhões. Mas, em contrapartida, já neste início do século XXI, verifica-se que a pobreza continua a ser um problema global de enormes proporções:
- Dos 6 mil milhões de habitantes hoje existentes, 2,8 mil milhões (quase metade) vivem com menos de 2 dólares/dia e 1,2 mil milhões (um quinto) com menos de 1 dólar/dia; - Nos países mais ricos, menos de uma em 100 crianças não completa os cinco anos. Porém, nos países em desenvolvimento, um quinto das crianças morre antes de atingir essa mesma idade;
- Enquanto nos países industrializados menos de 5% de todas as crianças, com menos de cinco anos são desnutridas, nos países pobres a proporção chega a 50% (i.e., metade das crianças);
- A comparação de rendimentos individuais levada a cabo pelo PNUD concluiu que 1% das pessoas mais ricas do mundo, recebe o mesmo rendimento que 37% das mais pobres;
- O rendimento dos 5% mais ricos do mundo é 114 vezes superior ao dos 5% mais pobres; - Os 10% dos habitantes mais ricos dos EUA têm um rendimento igual ao dos 43% mais pobres do Mundo; i.e., 25 milhões de americanos têm um rendimento igual a 2 mil milhões de pessoas. [FERREIRA: 30].

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos