Dondo: Uma vila que persiste ao tempo e à memória

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O desafio que nos foi colocado para esta edição do Cultura remete-nos para a história, práticas e reflexões em torno de um dos já muito raros lugares-síntese, capaz de evocar o nosso passado, a nossa história e que por alguma razão se chama Dondo (Ndondu).

A velha e histórica vila do Dondo, sede do município de Kambambe está situada a cerca de 200 quilómetros da capital do país, posicionando-se na margem direita do Kwanza e bem perto do limite do curso navegável do rio.

Reza a história que lá foi parar Paulo Dias de Novais por volta de 1583 quando iniciava a sua caminhada através das águas do Kwanza, ao subir rumo à descoberta das lendárias minas de prata de Kambambe e de uma famosa feira Dondo, que, na época, já ocupava um espaço vital para a economia dos Mbundos assim como para as populações dos territórios vizinhos.

 A feira passa depois a ter, obviamente, interesse também para os portugueses e tomam seu controlo imediatamente. Porém, a verdade é que o protagonismo dado às transações comerciais que ali se operavam, tiveram origens bastante recuadas no tempo e, portanto, conclui-se que a feira do Dondo já era tão ou mais importante antes da presença colonial portuguesa.

À feira do Dondo iam parar vários produtos agropecuários vindos de terras longínquas, ou seja, os sertões interiores, como Masanagnu, Kambambi, Kisama, Pungo-a-Ndongu, Kazengu, Ambaka, Kasanji, Viyé, Mbalundu, etc.

Os produtos eram designadamente, a cera, o marfim, o sal-gema, o peixe seco e fumigado, o café, o óleo de palma, o algodão, os artefactos de metais e, inclusivamente, escravos trazidos por pequenas embarcações artesanais (as denominadas Chatas) e por caravanas que, deixaram traçados no tempo e no espaço, os rastos das suas rotas ou itinerários (comerciais).

A antiga feira, ficava, curiosamente, no local do atual embarcadouro e é ainda hoje, o local privilegiado para o comércio de produtos diversos, sobretudo do campo e o pescado, pelas populações atuais.

As atividades portuárias e comerciais no Dondo passaram a ter um incremento excecional paralelamente à ocupação territorial pelos comerciantes portugueses. Os negócios proporcionaram lucros que fizeram, por conseguinte, emergir um aglomerado que teve e tem, inequivocamente, as marcas do seu desenvolvimento assente na atividade mercantil. Dondo que nasceu sob o signo do comércio tornar-se, numa das mais belas estruturas urbanas em toda Angola nos séculos XVIII e XIX.

O casario, construído essencialmente, de pedra, barro e cal, ficou entre seculares e frondosas árvores (acácias rubras), em passeios feitos de laje e as ruas e praças iluminadas por candeeiros de cobre de belos efeitos escultóricos. Predominavam e ainda subsistem as típicas casas térreas e sobrados com telhados de cerâmica portuguesa (algumas substituídas por chapa de zinco onduladas).
As portas e janelas eram, regra geral, em arcos e as fachadas de linhas graciosas embora ostentem na sua generalidade simplicidade nos efeitos ornamentais. Algumas, no entanto, com motivos decorativos imaginados ou criados pelos seus construtores. A sua urbanização ganhou o aspeto do quotidiano e dinâmica da sua população.

A sua organização espacial é assente na criação de espaços públicos e privados, sobressaindo uma praça pública com coreto para as festas e atos oficiais e donde convergem os principais arruamentos da cidade. As ruas transversais, característico da urbanização ortogonal, inspirada pelo modelo da Era Pombalina (Batalha, 2008:79).

O cenário da vila tornar-se-á mais pitoresco ao juntar-se-lhe o seu ambiente vegetal tropical, no qual, convergem, nomeadamente, o cunho tradicional e espontâneo das suas construções e a disposição da sua arborização. Podemos acrescentar-lhe, ainda, o panorama vislumbrante do rio Kwanza. Tais elementos, não passam despercebidos ao visitante e, certamente, levam a considerar a velhinha vila ribeirinha do Dondo, como que um natural "fenómeno urbano".

O rio e a vegetação que enquadra a vila, passa a fazer parte integrante de uma imagem e qualidade ambiental específica, tratando-se de uma perfeita harmonia entre o natural e o artificial numa simbiose que por vezes nos confunde. Batalha, um inusitado defensor da vila (assim como o terão sido Emmanuel Esteves e o autor deste artigo), cita um relatório do secretário-geral de Angola data de 1869, no qual se faz referência ao facto de uma boa parte das mercadorias exportadas e registadas pelas Alfândegas em Luanda, tinham a sua proveniência do Dondo (Batalha, 2006:102).

Os tratamentos de limpeza, ordem e embelezamento do aglomerado terá sido garantido ou supervisionado por uma Comissão Municipal ad-hoc, criado ao abrigo de uma portaria do Governo-geral de 1857 (INPC, 1959: documentos) e o desenvolvimento da sua urbe passa, no entanto, a ser comparado à de Moçamedes (Namibe).

O transporte de passageiros e cargas, passa, a partir de 1868, a ser garantido através da ligação com Luanda passa a ser feita por dois barcos à vapor (Batalha, 2006:103) e de uma pacata povoação passa à categoria de vila em 1870, justamente porque, nessa altura, ela já era a principal povoação no interior de Angola.

Já no século XX, transformar-se-á num polo industrial de referência à economia da colónia e para Portugal. Nas extremidades são construídos novos edifícios cujas formas e gabarito correspondem a dinâmica que a vila teve.

A construção do caminho-de-ferro e da estrada que liga Luanda e Malanje, fizeram desaparecer o tráfego fluvial do Kwanza e Dondo perderá toda prosperidade que tinha como porto natural onde desembocavam os vários caminhos e rotas (Amaral, 1972:70).

Destacam-se do seu aglomerado o edifício da antiga Câmara Municipal, o Mercado Municipal, o emblemático edifício do BPC, as ruínas do antigo Hotel Kwanza, da Casa do leão, a correnteza de casas típicas da Rua da Kapakala, a graciosa Estação do Caminho-de-ferro, o Cemitério à porta da vila, o sito de embarcação, o Hospital, dentre tantos outros.Dondo de hoje

Dondo experimenta uma fase de declínio ocasionado construção, no século XVIII do ramal do caminho-de-ferro de Ambaca e Benguela, que acabou por ofuscar o protagonismo e a importância económica da vila. Este e outros fatores muito fortes, como a guerra civil no nosso País, mas também, a falta de trabalhos permanentes de manutenção, sobretudo depois da Independência, provocaram alterações significativas no perfil arquitetónico e urbano da cidade. As edificações, as infraestruturas técnicas e a "própria vida" da vila conheceram uma degradação paulatina e incessante.

Por outro lado, subsistem, ainda, em nome da ignorância, práticas incorretas, particularmente no restauro ou reabilitação dos imóveis que fazem parte do perímetro da zona de arquitetura histórica.

Muitos desses imóveis são submetidos a tratamentos de reparação superficiais ou quando profundas lhes fazem perdem irremediavelmente a sua integridade e autenticidade. Consequentemente perde-se a esmerada identidade da cidade.

Face à gradual mudança do paradigma mercantil da vila e os seus habitantes passam a dedicar-se a outros tipos de comércio, sobretudo o de taberna. Nos anos 50 do século passado, a cidade estava muito degradada. Muitas das casas foram abandonadas pelos seus proprietários, que terão ido para outras paragens em busca de lucros nos seus negócios (INPC, 1959:arquivos).

Ao que consta nos arquivos do Instituto Nacional do Património Cultural, o Arquiteto Batalha nos anos 60, ao serviço da então Direção Geral dos Transportes, Obras Públicas e Monumentos, empreendeu uma série de tentativas visando a preservação da vila do Dondo, incidindo sobre o restauro dos imóveis com o fim de valorizar o aspeto patrimonial da vila e da sua paisagem histórica e natural (INPC, 1960:arquivos).

Depois da Independência (19791981), voltou o arquiteto batalha, a tentar animar o projeto de valorização da vila e a sua possível reconversão como atrativo turístico (embora já o seja naturalmente), propondo mediadas e ações institucionais de salvaguarda e planificação, desatinadas a remediar as manifestações mais evidentes de degradação da vila. Porém, mais uma vez ficou submetida às questões conjunturais.

Tem, efetivamente, a vila do Dondo, uma capital importância histórica e cultural, portadora de uma memória coletiva que nos remete para lá dos tempos das transações comerciais com a população lusitana. Tal fator, terá, certamente, motivado o Ministério da Cultura e o Governo da Província do Kwanza-Norte a promover a realização de feiras periódicas que, para além de proporcionar o resgate ou a reconstituição histórica de uma época em que as trocas comercias, terão gerado efeitos significativos na vila das populações daquela região e não só.

A instituição da "Feira do Dondo" é, porventura, um ponto de partida para o estudo e reflexões profundas sobre as fronteiras culturais, as formas de etnicidade dos povos naquela região, a sua organização económica, as suas tecnologias artesanais, os fatores de interdependência entre os diferentes povos, a diversidade das manifestações culturais; ou até mesmo experimentar a sensação de viver ou reviver o passado no presente, favorecendo o diálogo renovado entre as comunidades (Convenção 2003:preâmbulo). Com a feira pode-se, também, proporcionar um circuito, viabilizando a sensibilização das pessoas sobre a história daquele velho burgo e a necessidade para a sua preservação.

A nossa modesta opinião é de que é possível construir-se um plano de proteção e de gestão da histórica vila do Dondo. O objetivo será garantir a preservação dos valores patrimoniais da cidade, melhorar a qualidade de vida da sua população e de sua atratividade turística.

Sugeríamos, então, só numa primeira fase, que se impedisse que a degradação continue ou que continue ao ritmo que tem sucedido.

Será primordial, no entanto, que se evite a condenação da vila do Dondo, um dia, em vestígio de épocas passadas e um testemunho da indiferença das gerações atuais. É por isso necessário, multiplicar atualmente, os esforços para dar uma outra imagem e dimensão àquela vila que, possibilitaria remeter a vila ao lugar que merece na história da urbanização em Angola, pelo seu significativo valor histórico-cultural.

Constitui um património edificado e paisagístico de grande importância no contexto nacional. O próprio potencial que lhe advém pelo facto de fazer coincidir um equilíbrio e uma beleza significativas em termos de paisagem edificada com um valor cénico muito grande da sua envolvente pode ser responsável por uma atratividade aos seus visitantes e turistas.

Constou-nos, porém, a falta da classificação da vila (como "Cidade Histórica", "Zona Histórica" e porque não "Paisagem Urbana Histórica"?) que seria, em nosso entender, uma útil ferramenta de preservação. Pois, a vila passaria a ter um amparo jurídico e eventualmente ajudaria o Estado fazer face às iniciativas antagónicas à sua condição de um importante "documento histórico". Salientamos que ela é das mais antigas e, modéstia à parte, das mais bonitas do País.

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