Dondo: Uma vila que persiste ao tempo e à memória

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O desafio que nos foi colocado para esta edição do Cultura remete-nos para a história, práticas e reflexões em torno de um dos já muito raros lugares-síntese, capaz de evocar o nosso passado, a nossa história e que por alguma razão se chama Dondo (Ndondu).


As portas e janelas eram, regra geral, em arcos e as fachadas de linhas graciosas embora ostentem na sua generalidade simplicidade nos efeitos ornamentais. Algumas, no entanto, com motivos decorativos imaginados ou criados pelos seus construtores. A sua urbanização ganhou o aspeto do quotidiano e dinâmica da sua população.

A sua organização espacial é assente na criação de espaços públicos e privados, sobressaindo uma praça pública com coreto para as festas e atos oficiais e donde convergem os principais arruamentos da cidade. As ruas transversais, característico da urbanização ortogonal, inspirada pelo modelo da Era Pombalina (Batalha, 2008:79).

O cenário da vila tornar-se-á mais pitoresco ao juntar-se-lhe o seu ambiente vegetal tropical, no qual, convergem, nomeadamente, o cunho tradicional e espontâneo das suas construções e a disposição da sua arborização. Podemos acrescentar-lhe, ainda, o panorama vislumbrante do rio Kwanza. Tais elementos, não passam despercebidos ao visitante e, certamente, levam a considerar a velhinha vila ribeirinha do Dondo, como que um natural "fenómeno urbano".

O rio e a vegetação que enquadra a vila, passa a fazer parte integrante de uma imagem e qualidade ambiental específica, tratando-se de uma perfeita harmonia entre o natural e o artificial numa simbiose que por vezes nos confunde. Batalha, um inusitado defensor da vila (assim como o terão sido Emmanuel Esteves e o autor deste artigo), cita um relatório do secretário-geral de Angola data de 1869, no qual se faz referência ao facto de uma boa parte das mercadorias exportadas e registadas pelas Alfândegas em Luanda, tinham a sua proveniência do Dondo (Batalha, 2006:102).

Os tratamentos de limpeza, ordem e embelezamento do aglomerado terá sido garantido ou supervisionado por uma Comissão Municipal ad-hoc, criado ao abrigo de uma portaria do Governo-geral de 1857 (INPC, 1959: documentos) e o desenvolvimento da sua urbe passa, no entanto, a ser comparado à de Moçamedes (Namibe).

O transporte de passageiros e cargas, passa, a partir de 1868, a ser garantido através da ligação com Luanda passa a ser feita por dois barcos à vapor (Batalha, 2006:103) e de uma pacata povoação passa à categoria de vila em 1870, justamente porque, nessa altura, ela já era a principal povoação no interior de Angola.

Já no século XX, transformar-se-á num polo industrial de referência à economia da colónia e para Portugal. Nas extremidades são construídos novos edifícios cujas formas e gabarito correspondem a dinâmica que a vila teve.

A construção do caminho-de-ferro e da estrada que liga Luanda e Malanje, fizeram desaparecer o tráfego fluvial do Kwanza e Dondo perderá toda prosperidade que tinha como porto natural onde desembocavam os vários caminhos e rotas (Amaral, 1972:70).

Destacam-se do seu aglomerado o edifício da antiga Câmara Municipal, o Mercado Municipal, o emblemático edifício do BPC, as ruínas do antigo Hotel Kwanza, da Casa do leão, a correnteza de casas típicas da Rua da Kapakala, a graciosa Estação do Caminho-de-ferro, o Cemitério à porta da vila, o sito de embarcação, o Hospital, dentre tantos outros.

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