Dondo: Uma vila que persiste ao tempo e à memória

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O desafio que nos foi colocado para esta edição do Cultura remete-nos para a história, práticas e reflexões em torno de um dos já muito raros lugares-síntese, capaz de evocar o nosso passado, a nossa história e que por alguma razão se chama Dondo (Ndondu).

Dondo de hoje

Dondo experimenta uma fase de declínio ocasionado construção, no século XVIII do ramal do caminho-de-ferro de Ambaca e Benguela, que acabou por ofuscar o protagonismo e a importância económica da vila. Este e outros fatores muito fortes, como a guerra civil no nosso País, mas também, a falta de trabalhos permanentes de manutenção, sobretudo depois da Independência, provocaram alterações significativas no perfil arquitetónico e urbano da cidade. As edificações, as infraestruturas técnicas e a "própria vida" da vila conheceram uma degradação paulatina e incessante.

Por outro lado, subsistem, ainda, em nome da ignorância, práticas incorretas, particularmente no restauro ou reabilitação dos imóveis que fazem parte do perímetro da zona de arquitetura histórica.

Muitos desses imóveis são submetidos a tratamentos de reparação superficiais ou quando profundas lhes fazem perdem irremediavelmente a sua integridade e autenticidade. Consequentemente perde-se a esmerada identidade da cidade.

Face à gradual mudança do paradigma mercantil da vila e os seus habitantes passam a dedicar-se a outros tipos de comércio, sobretudo o de taberna. Nos anos 50 do século passado, a cidade estava muito degradada. Muitas das casas foram abandonadas pelos seus proprietários, que terão ido para outras paragens em busca de lucros nos seus negócios (INPC, 1959:arquivos).

Ao que consta nos arquivos do Instituto Nacional do Património Cultural, o Arquiteto Batalha nos anos 60, ao serviço da então Direção Geral dos Transportes, Obras Públicas e Monumentos, empreendeu uma série de tentativas visando a preservação da vila do Dondo, incidindo sobre o restauro dos imóveis com o fim de valorizar o aspeto patrimonial da vila e da sua paisagem histórica e natural (INPC, 1960:arquivos).

Depois da Independência (19791981), voltou o arquiteto batalha, a tentar animar o projeto de valorização da vila e a sua possível reconversão como atrativo turístico (embora já o seja naturalmente), propondo mediadas e ações institucionais de salvaguarda e planificação, desatinadas a remediar as manifestações mais evidentes de degradação da vila. Porém, mais uma vez ficou submetida às questões conjunturais.

Tem, efetivamente, a vila do Dondo, uma capital importância histórica e cultural, portadora de uma memória coletiva que nos remete para lá dos tempos das transações comerciais com a população lusitana. Tal fator, terá, certamente, motivado o Ministério da Cultura e o Governo da Província do Kwanza-Norte a promover a realização de feiras periódicas que, para além de proporcionar o resgate ou a reconstituição histórica de uma época em que as trocas comercias, terão gerado efeitos significativos na vila das populações daquela região e não só.

A instituição da "Feira do Dondo" é, porventura, um ponto de partida para o estudo e reflexões profundas sobre as fronteiras culturais, as formas de etnicidade dos povos naquela região, a sua organização económica, as suas tecnologias artesanais, os fatores de interdependência entre os diferentes povos, a diversidade das manifestações culturais; ou até mesmo experimentar a sensação de viver ou reviver o passado no presente, favorecendo o diálogo renovado entre as comunidades (Convenção 2003:preâmbulo).

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