Museu da Huíla: 63 anos de histórias

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Falar de 63 anos de História do Museu Regional da Huíla é falar de 63 anos de histórias. Histórias que fazem deste Museu uma das mais importantes instituições museológicas do país.

A directora do Museu, Soraia Ferreira, ao centro, ladeada por duas técnicas

Falar de 63 anos de História do Museu Regional da Huíla é falar de 63 anos de histórias. Histórias que fazem deste Museu uma das mais importantes instituições museológicas do país. É falar de Alberto Machado da Cruz enquanto investigador das Ciências Sociais e Humanas, responsável pela recolha de grande parte das colecções que compõem o acervo do MRH, é falar de Peixoto Correia, Governador do Distrito da Huíla em 1955, que, percebendo a importância da recolha etnográfica levada a cabo por Machado da Cruz, funda, na cidade de Sá da Bandeira, o Museu da Huíla, é falar igualmente de Arnaldo Correia, o médico que doa a sua moradia para efeitos culturais e científicos e onde Peixoto Correia e Machado da Cruz instalam o Museu, é falar da dedicação de José Ferreira que durante os anos que se seguiram à independência de Angola conseguiu, dentro das suas modestas possibilidades, manter e preservar o importante espólio que a instituição alberga. É também homenagear todos os funcionários que ao longo dos anos se dedicaram à preservação, manutenção e divulgação da Cultura angolana.
A visita que o jornal Cultura fez ao Museu Regional da Huíla contou com os préstimos da sua directora, Soraia Santos Ferreira, que traçou a resenha que abre esta reportagem e facilitou a entrevista guiada ao rés-do-chão e à cave, onde se encontra a exposição permanente. Para além da exposição etnográfica, o Museu possui o jardim onde se erguem estátuas de figuras marcantes da História colonial de Angola, como Artur de Paiva e João de Almeida, e os bustos de Luís de Camões, D. José da Câmara Leme e Agapito de Carvalho.
Instalado numa moradia adaptada às funções museológicas pretendidas, o Museu da Huíla contou de 1956, ano da sua fundação, a 1975, com duas exposições etnográficas, uma portuguesa, com artefactos de origem colonial e outra com artefactos de origem Nyaneka. O âmbito do Museu altera-se após a independência nacional, altura em que são retirados da exposição os artefactos de etnografia portuguesa, passando, desde então, a dedicar-se ao estudo, preservação e divulgação da cultura material dos povos, não apenas da província da Huíla, mas de toda a região Sul, composta pelas quatro províncias: Huíla, Namibe, Cunene e Kuando Kubango.
Das quatro províncias do Sul de Angola, a Huíla é aquela que apresenta uma maior diversidade, coabitando no seu território os Nyeaneka, que, por si sós, se subdividem em 11 sub-grupos: os Ovanyaneka, Ovamwila, Ovahumbi, Ovahanda de Quipungo, Ovahanda da região da Mupa, Ovacipungo, Ovankhumbi, Ovandongwena e Ovahinga.
A província do Namibe é território por excelência dos Herero ou Ovahelelo, que se subdividem em Ovakuvale, Ovahakavona, Ovangendelongo, Ovacavyuka e Ovahimba.
Os Ngangela, que ocupam maioritariamente a região da província do Kuando Kuabango, estão também sub-divididos em vários grupos, dentre os quais se destacam os Ngangela de Katoko, Mpengo e Nyemba.
No que diz respeito à província do Cunene, esta é composta pelos Oshiwambo, nomeadamente os Kwanhama, Evale, Ombandya e os Dombondola.
De uma forma geral, a vida económica destes grupos baseia-se fundamentalmente na criação de gado e numa agricultura de subsistência. O gado é considerado a sua maior riqueza, sendo poderia dentro de uma comunidade avaliado em função do número de cabeças que uma família detém. O Boi é, assim, o animal que simboliza riqueza material, cultural e espiritual, representando o símbolo do poder.
Na agricultura, praticada por mulheres da comunidade, são cultivados essencialmente o massango e massambala e o milho. Para alem destas actividades, os povos do Sul de Angola praticam também a caça, actividade mista, a olaria manufacturada pelas mulheres e a cestaria igualmente praticada pelas mulheres.
Socialmente estão organizados em complexos de aldeias denomidadas Eumbo entre os Nyaneka e Oshiwambo (Huíla e Cunene), Onganda, entre os Herero (Namibe) ou Limbo entre os Ngangela (Kuando Kubango). Cada uma dessas aldeias obedece a uma hierarquia de poder cuja figura de destaque é o patriarca, rodeado pelas suas mulheres, sobrinhos, filhos e parentes das suas mulheres.
No que toca às suas crenças e religião, são povos que acreditam num único Deus, omnipotente e criador de tudo quanto existe que é denominado por Huku ou Suku pelos Nyaneka, Huku pelos Herereo e Kalunga pelos Ngangela e Oshiwambo. A sua maior instituição religiosa é o Ocoto para os Nyaneka, Coto para os Ngangela, Olupale para os Oshiwambo e Helau para os Herero que é um altar familiar onde se podem realizar, quer reuniões, quer rituais sagrados. Para alem de acreditarem no Deus único, respeitam as figuras mágicas, nomeadamente Ocimbanda (curandeiro), Onganga (feiticeiro) e Ocitapesa (adivinho) que podem estar incorporados num único indivíduo.
É esta a grande riqueza e diversidade cultural que a exposição do Museu Regional da Huíla transmite aos seus visitantes, valorizando o que de mais tradicional existe na região sul do país.
Nas salas da exposição permanente encontram-se colecções de objectos e artefactos de pastorícia, caça, agricultura e pesca, música, crenças e espiritualidade, objectos de adorno e peças de vestuário, olaria , cabaças e a maqueta de um Eumbo Oshiwambo.

Pastorícia e caça
A sala da pastorícia e da caça reflecte não só a importância destas duas actividades no seio das comunidades, mas também o simbolismo que possuem os utensílios utilizados, quer numa, quer noutra. Sendo o gado principal finte de riqueza dos povos do Sul de Angola, nesta sala assume especial destaque a Cabaça Batedeira e o Chapéu em fibras vegetais ornamentado com búzios. A cabaça é utilizada na transformação do leite fresco em Omahini, uma espécie de iogurte, mais conhecido localmente por “leite azedo”. O chapéu é o símbolo do poder real, utilizado pelo Ohamba.

Música e instrumentos musicais
Uma variedade de instrumentos atesta o papel que a are de cantar e tocar assume, desde os primórdios da Humanidade, na vida do homem. Os instrumentos expostas são, de certa forma, comuns a todos os grupos etno-linguísticos de Angola, com a excepção da Marimba, originária da província de Malanje e do Cinguvo usado no Leste do país.
Kissanges, batuques, a mbulumbumba, a dikanza, o chocalho e violas são alguns dos instrumentos ali expostos.

Poder, crenças e espiritualidade
O poder e o mundo das crenças estão representados no Museu Regional da huíla sobretudo pelos objectos do poder, por máscaras, cinganji e por diversos amuletos mágicos.
Na filosofia destas comunidades estes objectos ajudam a interpretar os dois mundos, o dos vivos e o dos espíritos ancestrais que ajudam a manter a ordem e a harmonia no seio das comunidades. Das quatro províncias do Sul de Angola, apenas o grupo Ngangela associa as máscaras e os cinganji às suas crenças.
Bastões, machados reais, colares feitos com dentes e ossos de animais, amuletos de chifres de animais e patas de galinha são algumas outras peças que introduzem os visitantes no seu universos espiritual.

Adornos e vestuário
Esta sala é uma homenagem às mulheres., à sua beleza e ao papel que ocupam dentro das comunidades. Colares, cintos de casca de árvores, em pele ornamentados com búzios, pulseiras, imagens de penteados tradicionais, pentes, escovas de cabelo e até alguns exemplares de vestuário feitos em fibras vegetais compõem o acervo desta sala com perfume de mulher.

Eumbo
O Eumbo, uma das peças mais emblemáticas da exposição, é a maqueta de uma residência típica das populações da província do Cunene e representa a residência de uma família alargada. É a residência de um chefe tradicional, dotado de grande poder e autoridade moral, jurídica, guardião da cultura e das tradições dos ancestrais.
A maqueta compõe-se de várias casas de habitação distribuídas em cinco zonas, tendo no centro a casa do chefe da família, à volta se distribuem as quatro zonas de residência das quatro mulheres, esposas do chefe. Pode ver-se ainda o Olupale, local de reuniões, uma área para as actividades domésticas e ainda um Sambo, onde se guarda o gado.

Cestaria
Kimbalas, balaios e cestos são expostos nesta sala, mostrando a arte de trabalhar as fibras vegetais de forma a obter objectos e utensílios de uso quotidiano. A arte da cestaria é comum a todos os povos de uma forma geral, variando apenas a forma e a matéria-prima utilizada na sua manufactura.

Olaria e cabaças
A cerâmica exposta no Museu da Huíla retrata o quotidiano das comunidades e é uma produção exclusivamente feminina. Panelas, moringues, pratos e taças são alguns dos utensílios de barro.
No que diz respeito a cabaças, encontram-se no Museu cabaças de várias dimensões, simples e ornamentadas, servindo para o armazenamento e transporte de kisângwa (bebida feita a partir de farinha de milho), leite e bebidas fermentadas.

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