Rua dos Mercadores erguida do esquecimento

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O secretario de Estado da Cultura, João Constantino, descerrou, no passado dia 23 de Agosto, a placa que atribui à velha Rua dos Mercadores o estatuto de património histórico.

O secretario de Estado da Cultura, João Constantino, descerrou, no passado dia 23 de Agosto, a placa que atribui à velha Rua dos Mercadores o estatuto de património histórico e cultural, classificada pela Portaria nº 9689-B.O. 7 de 13-02-1957.
A data foi bem escolhida por coincidir com o Dia Internacional da Abolição da Escravatura. A restauração da rua foi promovida pela Campanha Reviver, que este ano comemora 10 anos, e é uma parceria entre a Associação Kalu, o Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Lusíada e o Centro Cultural Brasil – Angola.
O local recebeu uma vasta programação de literatura, pintura, cinema, fotografia, música, gastronomia e outras formas de expressão, relembrando também o tema do comércio de escravos, despertando na vizinhança e nos transeuntes o património como sua pertença.
A Rua dos Mercadores situa-se à baixa da cidade entre o beco da Sé e a antiga rua Manuel Cerveira Pereira, muito próximo ao largo do Pelourinho (bairros dos Coqueiros).
A Rua dos Mercadores nasce nos finais do século XVII e princípios de XVIII, num período em que a actividade mercantil conhece um incremento excepcional tendo ela sido totalmente ocupada por negociantes. Daí que o traçado dos seus edifícios tenha ganho a influência da actividade principal dos seus proprietários.
As casas da rua eram, na sua generalidade, do tipo sobrado, em que o seu uso correspondia, regra geral, a uma distribuição funcional específica: tinham o piso térreo para o comércio e o piso superior como residência senhorial. Essas casas possuíam vastos quintalões que eram utilizados para o armazenamento dos escravos arrancados do interior da colónia para serem evacuados para as américas através do porto de Luanda.
Em 1957, a Rua dos Mercadores tinha sido classificada como sendo um Imóvel de Interesse Público, por ser uma das mais antigas e já raras artérias da cidade que, conservando alguns exemplares da arquitectura tradicional do passado, sugere ainda a antiga fisionomia e características dos primitivos arruamentos de Luanda velha.
A direcção da Campanha Reviver, fundada por Ângela Mingas e  Cristina Pinto, pretende, com esta obra, continuar a divulgar a história da cidade de Luanda e contribuir para a formação de cidadãos conscientes e esclarecidos.
A campanha Reviver é uma organização sem fins lucrativos que segue o lema “Recuperar, requalificar, reabilitar por uma Luanda com alma”. Em 10 anos de existência e de actividades, a organização tem sido persistente no trabalho de sensibilização para a importância da protecção do património da cidade de Luanda.
Esta iniciativa visa sensibilizar a população sobre o tema da preservação do património, através de apresentações ao público, acerca do património classificado em risco de extinção e ainda dar o arranque à promoção do turismo cultural através de passeios guiados pelo centro histórico da cidade.
Ao mesmo tempo, de acordo com uma nota partilhada com a imprensa, têm sido realizadas conferências de divulgação, pesquisas históricas, arquitectónicas e a partilha dos seus objectivos.
Segundo a professora Cristina Pinto, representante da Associação Kalu, a actividade surge da necessidade de se ter uma cidade mais recuperada, reabilitada e melhor, sensibilizar a população, a nossa sociedade e “a nossa governação, para que nós não percamos a memória na nossa cidade”.
“Costumamos organizar palestras, fazer visitas turísticas ao centro histórico com guias, passeios com as pessoas, principalmente com os luandenses e também estrangeiros, para mostrar um bocado da nossa cidade e a sua identidade cultural”.
Por sua vez, Susana Matos, arquitecta, afirmou primeiro temos que reconhecer que temos que olhar para um património, o que não é uma tarefa fácil, “principalmente com a crise que estamos a viver, mas é fácil reconhecer este património, e vale a pena investir nele, no sentido de dar-lhe um bom uso para restituir a vida da arte”.
A também directora-adjunta do Centro de Investigação Cientifica da Universidade Lusíada de Angola referiu que, com esta actividade, vai ser possível mostrar uma nova imagem, fácil de ver, acessível, uma demonstração do que é possível fazer para melhorar este património.

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