Símbolo da crença na espiritualização sustenta mito da criação na Lunda-Sul Muquixi

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Na cultura Lunda-Tchokwe, Muquixi simboliza autoridade, com poderes para impor medo e ordem dentro da sociedade Txikunza, criada a partir da Mucanda, que é uma instituição versada em rituais de circuncisão masculina. “É figura altamente respeitada e exerce, entre outras funções sociais, as de mensageiro junto das comunidades nas festas da Mukanda (circuncisão), rituais da puberdade, caça, pesca e no exercício do feitiço”.

Muquixi

Muandvumba, Kaita e Txinhama integram a linhagem de famílias reais, destinatárias das mensagens levadas pelos muquixis, designados por Mwakalanga e Txikunza, cuja atividade pressupõe "o consumo de sangue humano das vítimas (escravos), entregues para sacrifício por entidades da nobreza na sociedade mágica, momentos após à chegada do mensageiro ao palácio".

Na categoria dos rituais normais, o Txikunza é o mais temido " por ostentar dupla personalidade que lhe permite, em função das circunstâncias, agir como criatura humana ou sobre-humana". O Mwakalanga é dos mais temidos, ao nível de servidores da classe real.

Precisa que "as suas deslocações acontecem apenas uma vez, em cada cinco anos e envolvem mistérios. Por cada escala que observa no decurso da sua viagem, repõe as energias com o sangue da vítima que descobre, a dado ponto do seu itinerário, até chegar ao destino.

"A lista destes personagens versados em múltiplas atividades ligadas à tradição inclui o Kalélua, Mbomba, Txiko e Txindombe, mas as fontes notam que o Mwana-pwô é uma representação feminina, reputada pelo seu papel de animadora.

A indumentária e a dança de um muquixi despertam curiosidade sobretudo às mulheres e crianças em qualquer comunidade suburbana e até urbana. O seu poder de congregar quando dança, serve também para assustar e afugentar a assistência, por medo e respeito, cimentados na crença do "muquixi ser um espírito com configuração humana".

Conceito e funções

Para o soba e investigador da cultura local, Fernando João, o mascarado Lunda-Tchokwe é um artefacto cultural humano. Produzido de forma consciente pelo homem, intervém como suporte em rituais que expressam traços da cultura, "independentemente do que dirão os etnólogos, sociólogos e antropólogos".

Entre várias funções, o muquixi age como mensageiro nas festas de Mukanda (circuncisão masculina), da puberdade (para as meninas), além de uma preparação especial para servir famílias reais, na misteriosa hierarquia da sociedade mágico- feiticista. O seu papel é extensivo aos rituais para garantir a prosperidade das colheitas, da caça e da pesca. É uma figura representativa dos feitos importantes dos homens, depois de assumirem o Mungonge, uma instituição onde as mulheres despontavam pelo desempenho na prática da magia.

Resolvido o mistério criado pelo alongamento até ao teto da perna direita de Mungonge, uma das chefes falecidas no interior, os homens exigiram das mulheres a troca de definitiva desta instituição pelo Txiwimbi (instituição masculina), como pagamento pelo trabalho realizado.

Muquixi e Tshingandji

Atraídos pela exibição feita por um personagem com estética humana, responsáveis de grupos de carregadores, de viagem para o centro Sul do país compraram o artefacto, a fim de animar festas e momentos afins na terra natal.

Cansados da viagem adormeceram, esquecendo-se da recomendação recebida de "não dormirem sob pena de perderem o muquixi por ser um espírito", por altura do negócio.

O desaparecimento deste propiciou o regresso à localidade do vendedor que ignorou o lamento "atribuindo o sucedido ao desrespeito às normas recomendadas".

A ânsia pelo muquixi perdido durou até ao fim da viagem e forçou o fabrico de um artefacto com base numa vaga ideia tida à volta do que viram, mas sem o rigor exigido por falta de modelo. A esta nova criação chamaram de tshingandji (palhaço), uma imitação do muquixi, originário da cultura Tchokwe.

Tipologias

A variação no  figurino determina as tipologias e finalidade da sua criação. A tradição Lunda-Tchokwe abarca "rituais do bem" protagonizados à luz do dia pelas máscaras Txikunza, Kalélua, Mbomba, Txiko, e Txindombe. Constam das obrigações do Txindombe a definição e execução de estratégias a fim de garantir alimentos para os Tundandji (circuncisos).

A recolha dos produtos disponibilizados por donas de casa decorre por meio de truques para entreter os curiosos, atraídos pela sua presença. Cenários idênticos surgem em sessões de danças nas quais são protagonistas os muquixis Muana-pwô (rapariga) e Ngulo (porco). O Txindombe é um exímio protagonista de cenas e movimentos. Durante a dança desperta a curiosidade feminina, exibindo de forma alternada o órgão genital masculino, duplo, esculpido em madeira e pintado com alcatrão, resguardado entre as pernas e orientado em sentidos opostos para transparecer a imagem ilusória de "super-homem".

Poder da magia

Segundo a fonte, exercitam o poder sobrenatural. Em função da linhagem e extrato linguístico, a designação comum entre os Lunda-Tchokwe, Nhanecas, Txinhamas e Sangos é Muakalanga ou Txikunza, um palhaço mágico, que voa em vez de andar e age à base do sacrifício humano.

É dos muquixi mais temidos e normalmente exerce o papel de emissário entre reis. Qualquer comunicação sobre os objetivos que norteiam a sua deslocação "antecede a degolação de um escravo dado como oferta ao Txikunza", uma figura com características que indiciam alguma anormalidade.
Na lista de mascarados da classe real, dentro das etnias LundaTchokwe, o Muakalanga, também conhecido por rei dos muquíxi, viaja uma vez em cada cinco anos.

Os rituais mágicos abarcam uma instituição superior à qual "o conhecimento é reservado. Age como um colégio de médicos ou ordem de engenheiros. A execução de rituais pressupõe também especialistas com perícia reconhecida para intervir com competência, mas existe uma instituição superior à Mukanda para os homens e Kafundeji para as mulheres, representados pelas instituições Txiwimbe e Mungonge, respectivamente.

Mulheres no Mungonge e homens no Txiwimbe

As práticas ocultas realizadas por mulheres no Mungonge suplantam a inteligência dos homens ao resolverem enigmas atemos então tidos por impossíveis no Txiwimbe, instituição tradicional reservada exclusivamente aos homens para investigação e prática de magia.

Numa tentativa de contrapor o protagonismo das mulheres, os novos proprietários da instituição (Mungonge) criaram uma vestimenta tricotada, ligada a uma máscara para a cabeça com que vestiram um homem, a quem chamaram de muquixi. O mito sobre o suposto " espírito com formato de um homem que caminha, dança, mas não fala, ditou o medo e o respeito, traduzidos na fuga dos assistentes quando se aproxima". Esta criação ajudou a cimentar o "eterno orgulho dos homens".

Versão do Rei Lunda-Tchokwe

A etapa da circuncisão masculina na cultura Lunda-Tchokwe, propicia o aparecimento do Muquixi ,"personagem escavado durante um ritual secreto, apenas dominado por homens". Em termos de impacto, a lista avançada pelo soberano destaca o Katfa, Txikunza, Kalelua e Mbomba, mas nota que o Mwana-pwô "foi criado mais por uma questão de fama e solidariedade com as mulheres".

Por ordem de importância, o Txitetela e o Ikungo dominam várias especialidades. Constata o desaparecimento de valores por falta de exercitação, o que, em seu entender, sugere dos agentes esforços para resgatar o essencial da cultura para deixar um legado às gerações vindouras.


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