Usos e costumes do Bié: Sobas traduzem uma realidade histórica e cultural

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As autoridades tradicionais traduzem uma realidade histórica e cultural constitucionalmente reconhecida, razão pela qual representam reserva do património da nação, como afirmou no Cuito o seu regedor municipal, Afonso Viti.

Reunião de Sobas Fotografia: Edson Fabrízio

A autoridade tradicional da província do Bié afirmou que o poder dos sobas é reconhecido na Constituição, por encerrar uma função política resultante da influência que estes exercem junto da população.
Afonso Viti disse que as autoridades tradicionais sempre foram tidas em conta, mesmo no período precedente À Independência Nacional. “A autoridade colonial, pese embora o seu defeito, reconheceu o poder dos sobas”, disse Afonso Viti à nossa reportagem.
Actualmente, disse, as autoridades tradicionais exercem o seu papel em toda a  parte, incluindo nas estruturas do Estado e gozando, daí, direitos civis e políticos.
O regedor Afonso Viti afirmou, por outro lado, que as autoridades tradicionais estão presentes no processo de moralização da sociedade e que vão continuar a fazer o seu trabalho nesse sentido, apesar da influência de aspectos ligados à globalização.
Condenou, ainda, todos os cidadãos que acusam e fazem justiça por mãos próprias às pessoas acusadas de feitiçaria, “obrigando-as muitas vezes a tomar líquidos venenosos que originam a morte imediata”. “Esta é uma prática deveras negativa”, completou.
 
Prática de feitiçaria é terrorismo cultural

Chamado a pronunciar-se sobre várias práticas injuriosas que ocorrem no seio das comunidades, particularmente aquelas ligadas, em muitos casos, a acusações de feitiçaria, o regedor Afonso Viti criticou veementemente essa atitude no contacto mantido com o Jornal Cultura a partir do Cuito..
Nesse particular, a autoridade tradicional da província do Bié considerou a feitiçaria como “terrorismo cultural”, em que a crença aliada à pobreza, leva pessoas a cometerem actos desumanos contra idosos e menores, principalmente nas zonas rurais.
Na esteira do poder exercido pelas autoridades tradicionais nas comunidades, Afonso Viti refere, também, que com a democracia reinante em todo país, “hoje nenhum soba corre o risco de ser vandalizado por pertencer a este ou aquele partido político”. “Isso traduz o espírito democrático”, disse, apelando às demais autoridades tradicionais para respeitarem o direito de cidadania de cada um”.
As grandes realizações que o país, o Bié e a sua capital Cuito, em particular, conquistaram, sobretudo após a conquista da paz definitiva em 2002, mereceram também aplausos da autoridade tradicional.

O processo de alembamento na região do Planalto Central

O regedor Afonso Viti afirmou num outro ângulo da abordagem feita ao Jornal Cultura que o alembamento no Bié traduz um conjunto de actos conducentes à formalização do namoro de um casal de jovens, subdividido em três etapas até chegar ao casamento.
Na primeira fase os tios do rapaz, que pretende uma determinada rapariga, têm de cumprir um ritual para que esta obtenha o aval dos seus progenitores. “Os tios do rapaz têm de levar um garrafão de vinho, que a pretendida tem a responsabilidade de abrir num processo que é designado «utuvula melã», como conta Afonso Viti.
Já na segunda fase do processo do alembamento, a rapariga é vestida com roupas que o rapaz pretendente lhe oferece, além de um anel que deve exibir no dedo médio da mão esquerda. Essa segunda fase denomina-se «onelã» e a rapariga, ao fazer uso da indumentária oferecida, demonstra o comprometimento com o rapaz.
Na terceira e última fase, denominada de «ovilombo», os familiares dos dois jovens marcam uma data para um encontro, onde o pessoal afecto ao lado do rapaz procede à entrega de alguns meios. Normalmente, valores monetários, bebidas, fato para os pais e as mães das raparigas, panos e lenços para as tias são alguns dos meios entregues neste acto em que se marca a data para o casamento.
“Assim reza o processo de comprometimento entre um rapaz e uma rapariga na nossa tradição”, completa o regedor Afonso Viti.

Sérgio V. Dias e Afonso Belo, no Cuito


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